Vidas tocadas por dom Helder – o sociólogo Edival Nunes Cajá


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O sim do Vaticano à abertura do processo para beatificação e canonização de dom Helder Câmara reiniciou o debate sobre a figura do ex-arcebispo de Olinda e Recife e o alcance de suas ações. O que teria feito o sacerdote para merecer os altares?

A resposta, seguindo as exigências canônicas, pode demorar décadas. Exigirá curas sem explicações científicas. Serão os milagres feitos com a intercessão do cearense que viveu na arquidiocese local de 1964 a 1999. Foi nesse período, para muita gente que conviveu com dom Helder, que aconteceram os “milagres”.

Não os que se encaixam no rigor exigido pelo Direito Canônico, mas aqueles revelados na rotina das pastorais, paróquias e movimentos religiosos e sociais ou no apoio às famílias sem-teto e sem-terra e a presos políticos e comuns.

O Diario encontrou pessoas cujas vidas mudaram por estarem ligadas ao ex-arcebispo e seu modelo eclesial. Um modelo, segundo historiadores como Riolando Azzi e Oscar Beozzo, voltado às camadas pobres e que estimulava a participação dos leigos dentro e fora da igreja, levando-os a engajamento em conselhos de moradores, grêmios e sindicatos.

Um nome e uma chance para viver

O sociólogo Edival Nunes da Silva Cajá, 64, carrega na assinatura a marca das mudanças que sofreu por estar próximo a dom Helder. É o último dos sobrenomes. “Quando cheguei da Paraíba, as pessoas me chamavam de Cajazeiras”, contou. Era uma referência à cidade sertaneja de onde veio Cajá.

Em reunião da arquidiocese, relembrou, o arcebispo disse que Cajazeiras era uma palavra grande para nominar o estudante e  sugeriu reduzir. “Foi assim que dom Helder me batizou.” Quando preso e torturado, em maio de 1978, a polícia acreditava ser Cajá um codinome por sua militância no Partido Comunista Revolucionário (PCR). “E não era”.
A prisão aconteceu momentos depois de Cajá deixar a Cúria Metropolitana, na Boa Vista. Na época, ele integrava a Comissão de Justiça e Paz, que defendia famílias que lutavam por moradia e terra e presos políticos e comuns.

As torturas cessaram quando a história de Cajá veio a público, mas a liberdade só veio no ano seguinte. Dom Helder se empenhou no caso, que motivou uma greve dos 12 mil alunos da UFPE, onde Cajá estudava, e até um telegrama do papa Paulo VI em favor do estudante. “Muitos dizem que estou vivo por causa de dom Helder”, reconhece.

DIARIO DE PERNAMBUCO

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