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Vento que balança

POR CRISTINA MOURA

O mesmo vento daqui sopra dali e dacolá. O mesmo vento que balança as palhas do coqueiro, como naquela canção, é o mesmo que faz a curva. Tantas curvas. Tantas estradas. É o mesmo que assanha. É a esse mesmo vento que peço para fazer outros malabarismos, soprar nos cabelos, chacoalhar as consciências. É esse mesmo vento da Terra arredondada, balofa, mistério do universo.

Vou pedir ao vento para parar, de repente; em seguida, fazer um redemoinho em frente aos olhares que precisam. Vou pedir para invadir as máscaras, penetrar nos poros, sussurrar em forma de alegria. Deixe comigo. Vou pedir agora mesmo. Pedir para chegar nos ouvidos tampados: forma de corrupio. Corrupiando para sobreviver, corrupiando para nascer, corrupiando para morrer, corrupiando para sentir. Não sei se será nessa ordem ou nem sei se será ordenado, já que surgirá do meu pedido.

Não sei se saberei pedir, conforme as regras subjetivas das orações. Sei que o vento vem com um punhado de atitudes que mudaram, que vêm mudando, que trazem as mãos ensopadas de álcool. Algumas mãos abriram. Algumas mãos carregam pedras de diamante. Algumas mãos são estiradas para o abismo. Algumas mãos se unem ao silêncio. Tudo isso com a velocidade furta-cor, que é própria das incertezas.

Venha, vento, agora. Acho que tenho que pedir por favor. Venha, rasteiro ou inebriado. Venha com queijo parmesão por cima. Venha com aquelas passagens de tempo, dos relógios desacertados, dos relógios dos jogos de baralho, dos relógios das torres, dos relógios dos caixas de supermercado. Mas, venha. Venha mesmo.

Venha, vento, mesmo com uma tempestade cinematográfica. Venha, mas depois se assossegue, tenha modos, deixe o abraço perpetuar. Sei que é vento. Sei que é o mesmo vento que embala aquela serra, o mesmo que agita os cachorros, o mesmo que define as marés, o mesmo que visita o Planalto Central, o mesmo que açoita as umburanas, o mesmo que conta dinheiro, o mesmo que fala em esperança. Como delimitar, tanto vento, não sei. Nem sei se quero delimitar.

Para meu compasso, esse vento é uma mistura de bolo, mas é coisa sagrada. É o ar que me diz aqui dentro do peito, da calçada, do palco, do bosque, do riso. Às vezes, ventania; às vezes, brisa; às vezes, com chuva. É o que me diz, talvez, em que direção, com que roupa, em que medida, em qual frequência. Se é com açúcar, se é com força, se é tostado. Vento, então, pode começar. Meu querido leitor espera. Assim como eu, espera.

Por CRISTINA MOURA

Jornalista e professora. Reside em Vitória-ES.

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