Um dia de glória!


GERALDO BERNARDO

O melhor local para pregação é em frente a uma agência bancária. Sei disso muito bem. Fiz ponto por mais de ano em frente ao Banco do Brasil, ali na Presidente Bandeira (que outros chamam de Avenida Dois). Aquele ponto é muito bom, não tem a concorrência desleal com mendigos e nóiados da calçada do Midway. Ali sempre há um dinheirinho extra.

Outro dia, era uma segunda-feira, pensei que o faturamento não ia dar em nada, enganei-me.

Montei meu equipamento. Megafone, bateria no bolso de minha calça social, à mão uma pasta de executivo (onde guardo Bíblias), camisa de seda, pois é sempre investi na boa aparência, isto abre portas. Abri a pasta, tirei minha Bíblia surrada e comecei a pregação.

Meia hora de pregação, já estava desanimando, quando apareceu aquele sujeito. Cara de cinqüentão que ainda não saiu da adolescência. Camiseta com estampa de Muttley, fones de ouvido, calça jeans surrada, bolsa tiracolo transversalmente acondicionada no tórax, boina à Guevara, chinelos de couro, vasta cabeleira desgrenhada e óculos fundo de garrafa.

Vi quando adentrou na agência, esperou na fila, suando. Impaciente, esticava o corpo pra frente como se quisesse ver quem estava demorando, contava os que estavam à sua frente, apontando-os com os dedos e movimentando os lábios em silêncio. Murmurou algo para uma senhora que estava logo atrás, saiu, foi até o balcão, pegou alguns folhetos, voltou à fila e ficou lendo folders.

Naquele instante era como se Deus cochichasse para mim: “Vai que é tua, irmão”

Não perdi o foco (serve como exemplo pra você que me lê, nunca perca o foco de seu objetivo) observei cada movimento do cliente. Vi que o mesmo suava – ressaca – pensei e depois pude comprovar pelo hálito.

Controlei cada movimento dele, tracei seu perfil, analisando sua psicologia, percebi sua angústia. O cliente perfeito estava ali. Glória, Senhor!

O Senhor havia-me preparado o caminho. Percebi que meu alvo chegara ao caixa eletrônico, tirou o saldo (talvez), esmurrou a máquina, deu uma tapa quase violento na própria testa e tirou míseros trinta dinheiros. Planejei ficar com a nota de vinte.

Quando saía o abordei com a Palavra:

– Bem-aventurado aquele que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia, e guardam as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo.

– Desculpe, sou ateu – Falou-me insosso.

Estava estabelecido o diálogo. Deus realmente o havia preparado para mim.

– Misericórdia! Disse o Senhor: “Conheço as tuas obras; eis que diante de ti pus uma porta aberta, e ninguém a pode fechar; tendo pouca força, guardaste a minha palavra, e não negaste o meu nome.” Glória ao Senhor! – disse ao incrédulo e toquei-o levemente no braço.

Ele então me fitou. Havia um vazio descrente naquele pobre e indeciso rapaz.

– Professor tu és. E nada sabes que venha curar tua dor. Teu sofrimento é afogado em copos que só Satanás beberia, no entanto, estás perdendo tua salvação irmão.

– Não quero conversa, estou com pressa.

– Não, irmão não tenha pressa. Pare um pouco e ouça a Palavra de Deus. Escutai o que Deus reservou para ti, da boca deste pobre pegureiro sairá o conforto para tuas dores. Glória à Deus!

– Como você sabe que sou professor?

Era exatamente aquela pergunta que escancarava a porta pela qual eu devia adentrar. As pessoas são tão pobres no disfarce que não percebem o quanto se declaram, com vestimentas, comportamentos, palavras, enfim, basta conhecer um pouco de psicologia – muitos ignoram este meu aprendizado, acham que sou apenas um fanático – é fácil identificar profissões, angústias, enfim… ninguém é uma redoma intransponível.

– Foi Javé, o Senhor de todos os exércitos que cochichou ao meu ouvido. Ele disse que eu viesse até aqui para curar tua enfermidade.

– Que conversa é esta. Onde já se viu! Um come feijão feito tu, falar com Deus. E se eu te disser que Ele não existe.

– Piedade, Senhor! – Fiz cara de vítima e pude observar que na alça surrada da tiracolo – escrito à caneta – estava seu nome.

– Disse-me o Senhor num momento de Luz: “Vai, leva Minha palavra aos que dela necessitam”. É por esta razão, Giancarlo, que estou aqui. Tuas palavras podem agredir minha fé, mas não abalam minha convicção.

O professor tirou os óculos e seus olhos ficaram miúdos. Foi limpando a lente e, espantado, fitou-me com sua miopia.

– Sabe meu nome?

– Conheço as tuas obras, e o teu trabalho, e a tua paciência, e que não podes sofrer os maus; e puseste à prova os que dizem serem apóstolos, e o não são, e tu os achaste mentirosos. Amém! – Respondi.

– Por acaso anda me seguindo?

– Não! Venho ao teu encontro para te oferecer a cura. Sei que tens problema com a bebida e com a família – arrisquei – por isso estou aqui. Aleluia!

– Alguém deve ter-lhe dito quem sou. Deve ser armação de alguém. Foi Artemilson quem mandou o senhor me abordar não foi? Então foi alguém dos “GROG’S”

Ótimo. Ele já estava ficando atônito e dando informações, em pouco tempo iria a nocaute.

– Eu conheço as tuas obras, e o teu amor, e o teu serviço, e a tua fé, e a tua paciência, e que as tuas últimas obras são mais do que as primeiras. – Tasquei este cruzado de esquerda.

– Podes crê – falou-me e baixou guarda.

Enquanto falava foi tirando do bolso pequeno da tiracolo as chaves do carro acondicionadas num chaveiro onde estava gravado a famosa imagem dos Beatles na faixa de pedestres.

– Tens sofrido muito por mulher – claro que deduzi certo.

Não havia erro, aquele estereótipo dizia tudo: meia-idade, meninão, farrista (o hálito da ressaca, os nomes proferidos), mulherengo (comum a este tipo) e havia uma informação – GROG’S – só podia ser banda de rock, pois, um beatlemaníco com aquela pinta devia fazer parte de alguma banda cover.

– Diga logo o que você quer, tenho aula – ensaiou uma reação.

– Trago-lhe a Palavra de Deus por vinte reais – disse-lhe e entreguei um exemplar do Novo Testamento que me fora doado dias atrás. Porém, abri em Apocalipse e li: “Mas tenho contra ti que toleras Jezabel, mulher que se diz profetisa, ensinar e enganar os meus servos, para que se prostituam e comam dos sacrifícios da idolatria. E dei-lhe tempo para que se arrependesse da sua prostituição; e não se arrependeu”. Glória! Glória! Glória!

– Mas, isto é um roubo. Ia dizendo e entregando-me a nota cobiçada e alcançada.

– Não é nada para o remédio que te ofereço, pois, está escrito: “Conheço as tuas obras; eis que diante de ti pus uma porta aberta, e ninguém a pode fechar; tendo pouca força, guardaste a minha palavra, e não negaste o meu nome.” Sangue de Cristo tem poder.

– Vou comprar. Para o senhor não me apoquentar mais o juízo.

– Não seja injusto. Saberás tirar proveito deste maná sagrado. E, se alguém blasfemar, contra o Livro Santo, saiba que também este beberá do vinho da ira de Deus, que se deitou, não misturado, no cálice da sua ira; e será atormentado com fogo e enxofre diante dos santos anjos e diante do Cordeiro.

O professor saiu apressado fazendo meneios com a cabeça e eu, claro, dei um tempinho, arranjei outros desafortunados até completar a féria do dia. Depois subiu o morro de Mãe Luiza, fui visitar Marcão, meu fornecedor, paguei-lhe o vale e ainda apertamos um depois na Praia dos Artistas vendo o ocaso se derramar em ondas e espumas psicodélicas.

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