Um cafezinho

A COLUNA DE IVÂNIA CRISTINA LIMA MOURA

Poesia é atitude que ultrapassa sentidos. Enlaça a mente, enlaça a gente, e desenlaça, e retorce. Poesia é ação. É ver o Sol se pondo e reconhecer o sistema poético envolvido. Palavras que circulam no pensamento. Uma pausa. Pensamento que circula nas palavras: respiração. É ver. É ver com o espírito. É você mesmo. Um olhar que não está tão acessível a terceiros. E podemos tornar esse olhar estendido a outros olhares. É aí que a ação se acha compartilhada.

A poesia se espalha: o ar acolhe as sílabas. Remonta as imagens. Amplifica as formas. Vamos lembrar que poesia não é somente um soneto redondo e fabricado. Vamos lembrar que a rima pode embelezar, mas não é cartão de embarque. A poesia é o aperto do botão emocional, é o que se esconde nos becos do fazedor do poema. É o que revela como o autor passou a produzir naquele instante, naquele enredo, com aquela temperatura para cada frase. E frase é além do que entendemos como verso. Aquela linha pendurada no tempo, entre um varal e outro de sentimentos. É algo depois do horizonte, infinito: é o batuque do coração lapidando cada análise. Se não for para analisar, está tranquilo também. A ação permanece entre nuvens.

Poesia: a jurema que serve para remédio ou para afugentar, com seus espinhos, os invasores no mato. Ou é fonte ritualística, com teor religioso e meditativo. Importante: essa poesia não é exatamente a planta. É o olhar que investimos sobre ela e transformamos em verbo. Chacoalhamos tudo num contexto. Pode haver um poema sem verbo, tudo bem. Mas o exercício poético é, dentro dele, uma ação verbal. Movimenta-se. Pinota nas capoeiras do invisível.

A música é poesia pura. Não somente a letra ou a melodia que se irmanam. Vejamos a composição. O labor. O trabalho. E todo trabalho, seja ou não musical, envolve sua própria poesia, sua beleza ativa. Vejamos o exercício de um carpinteiro, ao fazer de um velho tronco uma cadeira. Vejamos o exercício de um padeiro, ao fazer da farinha de trigo um pão de ló. Vejamos o exercício de um professor ao explicar um conteúdo aos alunos. Vejamos o exercício da aprendizagem. Vejamos o exercício da troca de conhecimento. Vejamos.

Poesia n’alma. Poesia labirinto. Palavra que se perde, mas que se reencontra, que amedronta, que desafia. Palavra que socorre. Poesia é medicamento: nebulização para o presente, cauterização para as práticas, curativo para as esparrelas no mundo, hidratação nos tecidos sociais, injeção de sonhos.

Hoje e agora é poesia, embora eu sonhe. Agora é poesia viagem: navios de descobertas, aviões de intercâmbios, balões de solidariedade. Quero poesia de espanto: acorda, desperta, avisa. Quero poesia que fale a realidade, que discipline o cuidado com o próximo, que salve o dia apenas com um cumprimento. Sim, aquela: vem com o perdão, vem com o beijo e o abraço, vem com o botão da rosa, vem com a colmeia, vem com a passarada. Quero que venha com uma nação mais harmoniosa, sem achincalhe, sem desesperança. Que venha com a Lua cheia, com o clarão do relâmpago, com o cheiro da terra, com a xícara de café. Um cafezinho, por favor. Grata.

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