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Talvez os minutos surgissem

AM3 – 250×250

Mesmo enfileirados, entendíamos o que se passava a trinta metros de distância. Entramos num meio de transporte. Não era ônibus, van, nave, nada que eu tivesse visto. Mas, de todos os meios, parecia um trem subterrâneo. Sentamos. Havia um ícone em cada poltrona, indicando nosso novo nome e nosso novo número. Nossas aparências mudavam gradativamente, a cada ponto de apoio. Embarcavam, nesses pontos, dezenas de outros seres, que já não eram mais pessoas, mas um misto de gente e luminosidade, bicho e centelha. Assim, de ponto em ponto, parecíamos nos confrontar com nosso mundo anterior. Paramos em pelo menos cem pontos. Não contei de verdade, pois adormeci. O sono era profundo e, ao mesmo tempo, real, pegajoso, intenso. Entramos noutro veículo, nos moldes parecidos com o trem de início. O mais recente, porém, trafegava de forma leve num terreno pantanoso. Por ali, víamos criaturas bem próximas do que nossa consciência avisava; em volta, todas caminhando naquele lodaçal característico, com aquelas plantas semiaquáticas, com aqueles anfíbios que se achavam os donos do pedaço. As criaturas pareciam satisfeitas. Apenas observávamos, em silêncio meditativo, pois éramos orientados a não sentir emoções perturbadoras da ordem. Um de nós, que havia entrado no ponto de apoio da planície, resolveu chorar. Foi, de maneira automática, eliminado. Desintegrou-se, em fiapos de luz. Continuamos firmes, sem dramas, sem perguntas, apenas observando cada trilha de acesso a um lugar ainda improvável. Num dos caminhos enlameados, paramos para obedecer a um sistema mínimo de trânsito. Por nós passou outro trem, multicor, barulhento. Era um barulho agradável, mas não posso classificar como música. Havia um ritmo, uma sequência lógica, uma harmonia que se guiava por alguns sinais do ambiente. Isso durou dois segundos. É o que eu imagino que seja, pois a noção de horas não existia ali. Um tempo indefinido. Algo a se pensar. Percebemos que existia uma fronteira a ser transposta. Alguns seres, que posavam como se fossem vigilantes, indicavam uma estrada de pedregulhos. Com esse comando, nosso trem saiu do pântano. Uma das criaturas, no entanto, resolveu seguir conosco. Aliás, resolveu cumprir uma determinação e grudar numa das portas. Não foi tão bizarro. Nossas mentes é que arquitetavam em progressão aritmética. Uma tela gigante apresentava nossos pensamentos, todos, de uma só ninhada. Trilhões de ideias, medos, estigmas, sombras e passaportes, vibrando num acorde desmedido, para que ninguém ousasse revelar o segredo. Um de nós tentou capturar outro pensamento. Foi enredado por uma névoa estranha, que imitava um fiscal de pátio. Nossa voz saía em canudos, por um cânion que aparecia a cada compartimento temporal. Talvez os minutos surgissem. Cada tubo ecoava noutro trem, que vinha tão lento, que adormecemos dentro do sonho. Tivemos certeza que era sonho e que não teríamos capacidade de sair dali sem que todos concordassem. Olhávamos uns para os outros de forma calorosa, animada, risonha. De forma esperançosa: recheada de chocolate. Não percebemos, porém, que todos estávamos noutro trem, mais festivo, mais convidativo. Pisamos no solo, velho conhecido. Éramos incapazes, por enquanto, de falar sobre o que sonhamos em conjunto. Mas sabíamos. No meio daquilo tudo, salvou-se um emaranhado de palavras e sentimentos. Saltitou. Brilhou. Bem na nossa frente, foi se erguendo. Tornou-se parte de tantos mundos. Combinou termos, sílabas, sons, apetrechos verbais. Combinou lembranças, personagens, sentidos. Nasceu o poema do dia.

TATYANA
ELIANE BANDEIRA

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