Sim. Escrevo porque me calo. Escrevo porque leio. Escrevo porque experimento cores e sensações. Escrevo porque me canso. Escrevo porque ando de bicicleta nas nuvens. Escrevo porque também piso descalça no asfalto quente. Escrevo porque acredito, duvido, arrisco, acerto, erro. Escrevo porque sou detetive em plena caçada de pistas na zona urbana. Escrevo porque também sou índia num solene amor pela terra. Escrevo porque sou assim, desse modelo. Escrevo porque me conformo. Escrevo porque esperneio.

Sim, verdade. Escrevo porque eu tinha medo do Papa-figo. Escrevo porque já tive caxumba e catapora. Escrevo porque combato o reumatismo. Escrevo porque sou asfixia e susto, exaustão e luta; alegria e comemoração; vitória e fogos de artifício. Escrevo porque sou máquina datilográfica e mimeógrafo. Escrevo porque também sou laptop e impressora. Escrevo porque sou humana, sou flexível, mas falível. Escrevo porque codifico, teço, retruco. Escrevo porque respiro. Escrevo porque me mandaram. Escrevo porque quero. Escrevo porque voo, mas me prendem. Escrevo amarrada, mas me soltam.

Sim, é possível. Escrevo porque a língua me convém. Escrevo porque falo. Escrevo porque pergunto e respondo; mordo e sopro; durmo e acordo. Escrevo necessariamente. Escrevo porque nocauteio, mas também perco. Escrevo porque dou cambalhotas, mas também escorrego. Escrevo porque sou gente. Escrevo porque sou espírito. Escrevo porque sou carne e osso. Escrevo porque sou cidadã e contribuinte; eleitora e estudante; motorista e locatária. Escrevo porque sou aprendiz. Escrevo porque sei dançar forró. Escrevo porque comecei a pintar uma floresta. Escrevo porque tenho sangue de negritude. Escrevo porque gosto de baião de dois com queijo coalho. Escrevo porque gosto de suco de tamarindo. Escrevo porque às vezes nem sinto fome.

Sim, com certeza. Escrevo porque gosto de cachorro e gato, passarinho e borboleta, cavalo e vaca. Escrevo porque tenho fé. Escrevo porque sou metamorfose, mas estátua também. Escrevo porque não gosto de violência. Escrevo porque não gosto de injustiça. Escrevo porque gosto de rock, mas também gosto de samba. Escrevo porque medito. Escrevo porque você, aí, lê. Escrevo porque é bom pro corpo, é bom pra mente. Escrevo porque isso é medicamento alopático, homeopático, fitoterápico, placebo e religioso.

Pois é. Escrevo porque me faltam as palavras. Escrevo porque não sei dizer. Escrevo porque amo o silêncio. Escrevo porque toco pandeiro, triângulo, atabaque, casaca, chocalho. Escrevo porque já toquei tanto violão. Escrevo porque sou janela e horizonte, mas também cripta e lençol. Escrevo porque não gosto de chá de boldo. Escrevo porque melancia e pimentão verde são indigestos. Escrevo porque não simpatizo com abacate. Escrevo porque faço o sinal da cruz ao sair de casa. Escrevo porque quero paz. Escrevo porque vivo. Escrevo porque preciso conhecer o mundo. Não, e não é somente isso. Escrevo porque sou.

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