Sonhos: terceira parte

A COLUNA DE IVÂNIA CRISTINA LIMA MOURA

Depois que saímos do túnel, entramos numa sala imensa. Mas, para ganharmos a chance de entrar, tivemos que atravessar outro portal. Desta vez, a entrada era individualizada. Achamos estranho, já que tudo ali, até então, era coletivo. Mas, aceitamos, lógico. Não tinha outra alternativa. Quero deixar claro que não implicávamos com as regras; apenas nos surpreendíamos. Parecia uma brincadeira, um parque de diversões, algo assim. Não. Era um trabalho sério. O portal era luminoso e continha números, muitos números, muitos números. Cada pessoa que pisasse no tapete de entrada ganhava uma combinação numérica, que aparecia num painel frontal. Não fazíamos qualquer movimento que direcionasse a algo mais incisivo ou fundamental para outro movimento. Não fizemos qualquer coisa antes de todos receberem seus números. Mesmo que quiséssemos, não podíamos nos mexer. Parecia que nossos pés estavam colados num azulejo quadrado. Quando cada um estava devidamente registrado com seu conjunto combinado de algarismos, abriram-se diversos armários também individualizados. Cada armário possuía uma cor, com um determinado número de gavetas, prateleiras e fichários. Acontece que nem todas as gavetas abriam com a nossa própria vontade. A abertura dependia da combinação dos números das outras pessoas: voltávamos, então, ao princípio da coletividade. À medida que o painel desaparecia, cada pessoa podia caminhar na sala. Caminhamos por quase uma hora. Não sei se esse era o tempo do meu tempo normal de todos os dias. A primeira gaveta que se abriu na minha frente, no meu armário, puxou-me para outra sala. Vi que estava sozinha. Não, não senti medo ou pavor. Estava bem tranquila, mesmo solitária num lugar desconhecido. Essa sensação de estranhamento de tudo durou poucos minutos. As outras pessoas foram chegando. Engraçado. Pensei: será que cada uma também saiu da outra sala e entrou nesta outra também por uma gaveta? Não sei se pelo mesmo formato. O importante é que todos estávamos ali, numa sala com diferentes pratos de comida, guloseimas atrativas, imagens suculentas. Algumas eram muito quentes. Exibiam aquela fumacinha da panela que saiu do fogo. Outras, pareciam crocantes. Outras, pareciam amargas. O mais estranho é que não sentíamos fome. Somente nos contentávamos com a visualização. Já nos dávamos por satisfeitos. A cada passo, encontramos outras salas. Vimos cartazes, painéis, tudo muito grande, com palavras de múltiplos idiomas numa mesma frase. Era muito tranquilo para ler e compreender. Os códigos pareciam muito familiares. Geometria perfeita. Eram códigos diferentes em cada compartimento de palavras. Devagarinho, as letras iam se concretizando em outros portais, aglomeravam-se em paredes, que não eram paredes, mas divisórias quase palpáveis. Quase. Eu digo quase porque lá era tudo quase. Quando pensávamos em tocar nas coisas, tudo desaparecia. E reaparecia noutra forma. Andamos mais um pouco pela sala das palavras. Encontramos outras pessoas que estavam ali e pareciam nos esperar. Não tive a impressão de que as conhecia. Não lembro. Mas senti que nos esperavam. E o que aconteceu, não consegui perceber. Somente vi que um vento frio se aproximava. Minha garganta doía de maneira insistente. Veio um acesso de tosse. Acordei.

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