Sonhos: sétima parte

A COLUNA DE IVÂNIA CRISTINA LIMA MOURA

Voltei àquela gruta como se nada tivesse acontecido. Cada um de nós sete entendeu que seria melhor mesmo entrar noutro roteiro. Cada um seguiu uma das cores apresentadas no portão de entrada. Era um portão de ferro maciço, mas repleto de arabescos e pintado de cinza. Ao olhar para trás, não vi meus companheiros de jogo. Vamos, alguém gritou. Vamos, alguém respondeu. Vamos, pensei.

Cada um que entrou em sua estrada, com sua respectiva cor, dissolveu-se no ar, em micropartículas prateadas. Não entendi. Nem era mesmo para entender, mas entrar. Algo me empurrou para a cor amarela. Pisei numa pedra lisa, como um lajedo, e fui seguindo o caminho, lentamente. Vi uma placa com um sinal positivo, imitando o polegar. A placa era suspensa, com um fio ultrafino, parecido de náilon, pendurado num galho. Mas a planta da qual surgiu o galho não era percebida, de início. Parece que eu tinha que passar por alguma etapa para que isso acontecesse. Senti. Quando andei uns quinhentos metros, olhei para a minha esquerda. Lá estava a bendita árvore. Enorme. Devia ser, sei lá, da família dos jequitibás, das paineiras, dos baobás. Um absurdo de beleza e grandiosidade.

Uma fome repentina apertou meu estômago. A pressão sanguínea foi baixando, senti meus olhos ardendo e as mãos segurando um objeto arredondado. Era uma fruta. Comi. Não sei o nome. Nem era mesmo para saber, mas comer. Que delícia de fruta. Algo entre banana, pêssego e manga. Algo com uma polpa consistente. Uma acidez controlada. Não lembro dessa iguaria na minha infância nem se é brasileira ou se híbrida ou se produzida por completo em laboratório. Sei que fiquei satisfeita ao longo do claro do dia. Meu corpo começou a sentir alívio. Meu âmago se equilibrou.

Continuei no caminho amarelado. Tons e tons de amarelo chegavam e se conectavam a outras estradas. Ocre, ouro, canário, mostarda, limão. Amarelinho, amarelinho. Percebi que todos se irmanavam num tom único, que balançava no cenário, ao frescor do vento. Cada um de nós sete se sentiu emocionado com essa brincadeira da tonalidade. No final da tarde, nós nos reencontramos numa montanha. Não era de difícil acesso o lugar. Era tranquilo. Silencioso. Florido. Mas lembro que fiz um esforço para chegar onde deveria ser. Minhas panturrilhas doeram um pouco. Não entendi. Nem era realmente para entender, mas jogar. Apenas jogar.

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