Sonhos: segunda parte

A COLUNA DE IVÂNIA CRISTINA LIMA MOURA

Então caminhamos num túnel forrado com um pano amolecido. Tentei pegar. Desaparecia com a minha aproximação. Tentei de novo. Percebi que ficava invisível quando eu me aproximava uns dez centímetros. Não era desconfortável o lugar. Pelo contrário: era claro e ventilado. Sentíamos perfumes diversos, principalmente frugais. Nada exagerado ou enjoado. Hum… Aquele cheirinho de goiaba de vez. Em seguida, aquele cheirinho de manguita, bem singelo. Em seguida, maçã. Desta vez, um odor bem intenso, mas não agressivo. Percebemos, todos, que muitas portas eram abertas, em várias direções. Com a nossa movimentação, fechavam-se. Isso era pra nos deixar confusos? Não. Talvez para entendermos que somente existiam. Um de nós se arvorou em entrar numa delas. Correu. A porta se fechou em milésimos de segundos. Depois disso, todas as outras não reapareceram. Continuamos em silêncio. Nosso diálogo pelo pensamento era importante. O chão começou a ficar transparente. Começamos a compreender que não parecia chão, que não pisávamos, que não caminhávamos. Estávamos flutuando. Que sensação estranha e bela ao mesmo tempo. Que poder eu achava que tinha ao flutuar. Não sei quantas exclamações agora. Não era voo rasante, aventureiro ou um brinquedo num parque de diversões. Nem era um número circense ensaiado. Era um flutuar sadio, percebendo cada detalhe de si mesmo. Cada detalhe do outro. Cada detalhe das paredes que se movimentavam ao compasso de uma música rebuscada. Cada detalhe do teto, que às vezes abria para mostrar um telhado como o céu. Mas não era céu. Vejam que tudo se movimentava, mas não era movimento gratuito. Havia um sentido, um ritmo, uma harmonia ímpar. Uma beleza que não se descreve com minhas palavras e cores. Meu texto não é digno de transcrever o que realmente sonhei. Passo perto com o que conto aqui, somente passo perto. A exatidão está longe das minhas frases, em relação ao que vi e acredito que víamos. Parecia uma visão coletiva mesmo. Tínhamos certeza, ao nos olharmos brevemente. Tínhamos certeza, ao nos olharmos longamente. O teto, de certa forma, exibia um cenário parecido com o fundo do mar. Estaríamos num ambiente marítimo diferenciado. Animais que voavam também nadavam, também caminhavam, também desapareciam. Não nos indignávamos com esse mistério. Curtíamos. Admirávamos cada situação apresentada. E era algo tão parecido com a realidade, em alguns casos, pois respirávamos. Não me lembro do sentido do tempo ali. Ninguém parecia ter compromisso, cartão pra bater, ponto pra assinar, loja pra abrir, edição pra fechar.  Ninguém parecia ter panela no fogo, criança pra amamentar, banho pra tomar, remédio pra engolir. Estávamos todos bem-humorados e alimentados. Ríamos com parcimônia. Não necessariamente gargalhávamos. Também não existia sono. O susto com alguma figura, de imediato, migrava-se para a contemplação diante do quadro pintado. Um som forte de água misturado a um som de alaúde se avizinhava. Ficava ainda mais forte. Estaríamos nós em algum período medieval, num castelo encantado? Não. Só sei que acordei bem devagarinho. Abri os olhos. Era madrugada. E ainda procuro me lembrar de tanta coisa, tanta coisa, tanta coisa. Mas é bom relatar mesmo noutra crônica. A promessa é real.

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