Daquele ponto até o azul do córrego, voltamos cansados. Daquele ponto, mesmo assim, querendo trabalhar numa construção. Tínhamos muito o que falar e correr. Chegamos, todos nós, trinta e sete: trôpegos, suados, prontos para dormir. Do outro lado da rua, uma ladeira desmoronava em cores, tijolos de cores, bombas de cores. Quis ir, de imediato, mas a mulher de número catorze me segurou. Seria uma cilada de verbos. Seria. Respirei fundo. Fiquei esperando o carteiro passar. Ele me entregou um envelope amarelo. Não era para mim. Eu não era remetente, mas aparecia a minha foto. No lugar do destinatário, apareceu um adesivo. Meu amigo de número cinco quis mexer. Não deixei.

Ao entardecer, bem sonoro, a senhora de número vinte e oito se aproximou com um giz branco. Desenhou no chão. Achei que fôssemos brincar de cademia, amarelinha. Não. Do risco do chão, naquele minuto, abriu-se uma dezena de quadros, com onomatopeias. Eram muitas exclamações e interrogações. Todos nós nos transformamos em personagens desses quadrinhos. Roupas surgiram e nos vestiram. Falamos frases repetidas, musicadas, altas, baixas, ladrilhadas. Dançamos em pares, trios, quartetos. Sapateamos num palco de vidro. Tínhamos um certo medo, mas íamos até a Vila das Cajazeiras. No caminho, encontramos estradas novas, todas de barro vermelho. De singeleza, erguiam-se centenas de coqueiros tortos. Centenas. Aprumavam-se com o vendaval de sorrisos.

Pode tudo isso até ser muito estranho, mas, em se tratando de sonho, é muito real e permitido. Não se paga ingresso nem se reserva lugar. Pode até ser palpável. É por isso que encontramos outro córrego. Falamos e rimos muito, mas o céu ficou nublado e um nublado diferente, um nublado ameaçador. Uma tempestade chegava. Cada um de nós seguiu num balão de fala. Era como se fôssemos protegidos dos raios, relâmpagos e trovões. Os balões eram do nosso próprio tamanho, como capas felpudas. Dentro deles, éramos silenciosos. Completamente. Palavras se articulavam e se formavam num abstrato de outro quadrado gigante. Só assistíamos ao fenômeno, sem ação, sem medida de pensamento.

O senhor de número dezenove viu algo se movendo no horizonte e nos avisou em códigos. Como decifrar esses códigos, não vimos. Como entender esse enigma, não soubemos. A senhora de número seis olhou de forma positiva. Ela sabia de todos os detalhes: tinha lido toda a obra de Arthur Conan Doyle. Entendia bem de suspense. Olhou para o lado direito: o carteiro reapareceu. Havia saído de um balão de fala, com um saco de cartas e convites. A senhora separou os convites. Analisou. Viu que não havia local reservado para o evento, mas haveria. Onde seria, não imaginamos. Ela procurou o garoto de número vinte e sete: foi até ele, nadando no balão. O garoto apontou o local: depois do córrego, depois da ladeira, em partes incolores. Não entendemos as partes incolores. Para nosso grupo não existia o incolor.

Foi preciso que o carteiro reaparecesse em outra rua, bem ali, perto da rodoviária. Ele sinalizou para um ônibus que estacionava. Entramos todos, passageiros, sem balões de fala, sem documentos. O veículo acelerou, acelerou, mas acelerou tanto e tanto e tanto que voamos. Flutuamos. Não era objeto parecido com avião, asa-delta, parapente, ultraleve. Era uma leveza nos poros. De intimidade com a atmosfera, estávamos dentro do Açude Grande.

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