Sonhos

A COLUNA DE IVÂNIA CRISTINA LIMA MOURA

Então chegamos e pisamos em terra firme. Não era propriamente terra, mas um tapete parecido com papel celofane. Todas as cores possíveis. Algumas tonalidades que necessitavam de pausa, de prendermos a respiração para vê-las. Caminhamos por entre as pedras. Não eram propriamente pedras, mas amontoados de círculos de uma energia brilhante e puxada para o cinza prateado. Continuamos a caminhar. Esbarramos no primeiro portal magnético. Havia um código numa língua desconhecida. Não conseguimos ler de imediato. Esperamos por vinte e quatro horas para começar a decodificar o objeto. Não eram as horas semelhantes ao nosso relógio de pulso. Eram pedaços de tempo recortados e depositados noutro portal. Tudo era organizado numa estante que desaparecia e reaparecia, desintegrando-se em micropartículas que se completavam em outras figuras planas. Descobrimos, enfim, o idioma. Passamos a compreender melhor e com afeto o que cada um imaginava. Um som de piano começou a nos envolver: éramos muitas pessoas. Cada uma representava um número e vestia a camiseta com tal número e uma conjunção de outros números. Não me lembro agora do meu número. Talvez não dê certo eu me esforçar pra lembrar. Lembro somente que alguns animais voadores passaram. Não eram propriamente passarinhos, mas eram atraentes. Cativavam nossa emoção. Quando percebemos, estávamos todos falando, mas não fazíamos ruídos. Era a música linda do piano que nos envolvia. Entendíamos tudo o que se falava. Olhávamos uns para os outros e falávamos. Apenas com os olhares. O pensamento era visto, lido, clarificado. A cada frase, os olhos exibiam uma codificação e velocidade de brilho. Continuamos a caminhar. No portal que entramos, tecidos e tecidos de uma vegetação fina se aglomeravam a cada passo do grupo. Chegamos numa espécie de auditório translúcido. Juntamente com o som do piano, entraram outros instrumentos clássicos: violinos, violas, violoncelos, contrabaixos. Tudo parou, de repente, para uma tímida harpa exaurir sua singeleza. Foi como se um poema fosse declamado em pequenos pedaços de sentimento bom. Nos arredores, mais tecidos fluidos apareciam, ao compasso musical. Outros instrumentos entraram no ritmo: flautas, flautins, pífanos, fagotes, oboés, pistons, clarinetes, saxofones, trompetes, trombones. Uma tuba fez um solo. Como imaginar um solo de tuba? Pois houve. E belo. E nos olhávamos como se esperássemos alguma outra apresentação naquele recinto amplo e confortável. Um cheiro aparecia, discreto. Talvez sândalo. Sentamos nuns bancos de madeira. Mas nem era especificamente madeira. Parecia. Era um campo energizado que nos apoiava e nos amparava, de modo a submeter nossos corpos àquele ambiente. Como num raio de segundo, tímpanos, caixas, pratos, carrilhões, triângulos se colocavam como marciais, solenes, límpidos naquela atmosfera. A música preenchia o espaço. Olhávamos uns para os outros. Aplaudimos o espetáculo. Não era um aplauso comum, barulho de mãos, de palmas. Era um respeito reconhecido em silêncio devocional. Entendíamos. Não sabíamos se era ali o paraíso.

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