Sonho de muitos anos


Canalizar as águas da sangria do Açude Grande era um sonho antigo da população de Cajazeiras. Em artigo anterior mostrei que o deputado federal Ivan Bichara Sobreira teve emenda aprovada para inserir no orçamento da União, de 1958, verba de 25 milhões de cruzeiros para a construção de um canal que ligará o sangradouro do açude público construído pelo DNOCS à ponte que une a cidade ao bairro do Belo Horizonte. Naquela época essa demanda já era antiga porque o riacho inundava um pedaço da zona urbana, limitava o crescimento da cidade, além de constituir problema de saúde pública na medida em que as poças d’água provocavam doenças e a proliferação de muriçocas.

Portanto, sonho de muitos anos.

Foi preciso que um cajazeirense, conhecedor da situação por vivência própria, assumisse o governo do estado para realizar aquele sonho. E o fez com a razão e o coração. O pleito tinha sido encaminhado ao Departamento Nacional e Obras e Saneamento (DNOS), mas estava esquecido numa gaveta qualquer. Precisava de um empurrão. E a ocasião propícia para isso se deu quando de reunião do Conselho Deliberativo da Sudene, em Recife, do qual participava o engenheiro Harry Amorim, diretor-geral do DNOS. Assim foi feito.

No próprio auditório da Sudene, Ivan Bichara, que já conhecia Harry Amorim, o chamou para uma conversa reservada, disse qual era o assunto e passou a palavra ao secretário de planejamento. Com o resumo em mãos, indiquei os principais dados técnicos e financeiros, a justificativa econômica, social e urbanística do canal, um sonho de 40 anos, eu disse. Nem cheguei a concluir minha rápida intervenção, Ivan põe a mão no meu ombro e diz:

– Harry, o secretário fala com este entusiasmo porque ele nasceu em Cajazeiras.

Em cima da bucha eu completei, mais importante ainda, doutor Harry, é lhe dizer que Cajazeiras é a terra do governador.

– Ivan, você não precisa falar mais nada, o problema agora passa a ser meu, disse o diretor do DNOS.

Parecia que Ivan e eu tínhamos combinado. Que nada, foi puro improviso. Uma maneira delicada de Ivan Bichara reforçar o pedido com as razões do coração. Daí para frente, ficou tudo fácil. O resultado veio então em parceria com a prefeitura, dando-se todos os passos necessários à construção do canal do sangradouro do Açude Epitácio Pessoa. Açude reinaugurado em 1915, pois na verdade foi uma grande ampliação da primitiva barragem, feita no começo século XIX, construída por Vital de Sousa Rolim, quando iniciava a formação de sua fazenda de gado, algodão e lavoura de subsistência. Isso na mesma época da construção da primeira casa que originou o núcleo urbano da futura cidade de Cajazeiras. Aquela casa derrubada para edificar o Tênis Clube, na década de 1950.

Quem era Harry Amorim?

Gaúcho. Entrou para o serviço público como engenheiro do DNOS, chegando a ser diretor-geral. Amigo do general Ernesto Geisel, foi nomeado, em 1978, governador do recém-criado estado do Mato Grosso do Sul, sendo responsável pela sua estruturação. De formação técnica, administrou sem prestigiar as oligarquias políticas dominantes na região, todas elas abrigadas na Arena. Por isso, comeu o pão que o diabo amassou. Só governou seis meses. Foi afastado pelo novo presidente da República, o general Figueiredo. Então, Harry Amorim se filiou ao PMDB e foi eleito deputado federal em 1982. Tentou, sem sucesso, a reeleição. Dois anos depois morreu em desastre de carro.

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