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Ser tão criança

POR MARIANA MOREIRA

A enfadonha melancolia de uma tarde de isolamento social se arrasta como se o tempo entrasse em outra dimensão: lento, descompassado, mal amanhado.

Os sentidos, viciados em lerdeza, captam situações de desanimo e incerteza. Nada a fazer do tudo que tem a ser feito. Leituras esquecidas na pressa da normalidade e rotina não apetecem o marasmo de uma tarde de nada a inventar. Músicas, filmes, palavras cruzadas se configuram triviais e cansativas. O corpo não sente nenhuma vibração como se pulmões, coração, cérebro experimentassem um estágio de letargia que se avizinha do desengano de viver.

A monotonia de uma tarde de maio segue entre luzes e sons que invadem, feito posseiro, frestas e ambientes. O cheiro da chuva chega numa rajada de vento que transpõe umbrais e soleiras e ocupa, sem permissão, mas com toda conveniência e legitimidade, os espaços vazios de vida.

Escancaro a porta e uma varanda encena aos olhos cansados do nada o nascente que desvirgina cortinas de chuva ao som de trovões e biqueiras. Uma chuva que, benfazeja, traz alento e verde ao sertão desde os primeiros meses do ano. Uma chuva que, nas margens de estradas e caminhos, recupera a cor de múltiplas flores que se espraiam nas ramagens de salsas, jitiranas, juremas, tingindo de matizes variados o que outrora fora apenas cinza e soturno.

O cenário da varanda enche olhos e certezas. Gritos efusivos atraem a atenção para um grupo de jovens que, a revelia de medos e ameaças da pandemia, gracejam a vida nas biqueiras que, abundantes da farta chuva, se projetam em calçadas e cabeças. Brincadeiras são improvisadas enquanto conchas de água aprisionadas em mãos serelepes são arremessadas para o alto como numa sublime cerimônia de celebração a vida.

Um cão de rua é atraído pelo ritual e se agrega ao grupo de jovens. Tenta, reiteradamente, captar a água que baila pelos céus nos arremessos de brincadeiras e folguedos. Abana o rabo como a afugentar a sina de solidão e ameaças que a errante vida de peregrino do nada lhe transmitiu como legado.

Por momentos que me pareceram infinitos o espetáculo descortinado pela varanda apagou toda incerteza que o momento nos traz como certeza mais visível. E o grupo de jovens e cão confirma para mim que o sertão, onde ele estiver, se faz criança em momentos de chuva.

Por MARIANA MOREIRA

Jornalista e professora universitária.

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