Roupa do corpo

Gaiatice, fuleiragem e o mais puro espírito de cajazeirabilidade

VALIOMAR ROLIM

Médicos, agora doublês de comerciantes e aprendizes de publicitários, os irmãos Rolim, não cabiam em si com o sucesso daquela jogada de marketing. Patrocinaram o carro de apoio do Bloco Sereia que tornou-se a sensação daquela Micaroa. Foi genial idéia de colocar uma modelo nua. Para cobrir o corpo dela, somente a pintura com o nome da loja recém inaugurada. E isso foi o maior acontecimento da festa.

O carro de apoio, um caminhão com banheiros e bar na parte de baixo da carroçaria, tinha, em sua parte superior, um grande palanque onde estavam acomodados cerca de cinqüenta convidados e, é claro, no lugar de destaque, a nova versão de Eva.

A passagem do trio fez a diferença. Os homens babavam, as mulheres os beliscavam, os velhos remoçavam, os meninos despertavam, as velhas invejavam, as moças comparavam-se, os homossexuais protestavam, as meninas sonhavam, em todos, todos, provocou reações efetivas e ninguém ficou indiferente.

Entre os privilegiados que estavam em cima do carro a situação não era diferente. Mesmo com a vantagem de privarem por todo o tempo do desfile, da exposição e proximidade do desnudo monumento, os homens não conseguiam aparentar indiferença, nem diante de suas esposas. À menor distração delas quedavam-se a olhar com tanta volúpia, tanta lascívia, que só eram acordados aos beliscões.

Delosmar Júnior levou vários beliscões. Talvez a proximidade da deusa fizesse com que ele nem sentisse o alívio pela pausa na sessão de beliscões a que era submetido com a breve ausência de Adriana. Notou mesmo foi a volta deles, agora praticados por uma Adriana bem mais calma e que parecia até um pouco indiferente.

Terminada a passagem do bloco não conseguiu-se encontrar a roupa da modelo. Procurou-se por todo o caminhão e nem o menor vestígio. Foi a maior exaltação. Os homens, de olhos grelados na moça e embalados pelo uísque, protestavam, sem muita convicção é claro, mas não com menor veemência. Quem teria a coragem de fazer tamanha maldade? Só podia ser coisa de menino. Alguns chegaram a fazer verdadeiros discursos, mas roupa que é bom, nada.

Terminou a confusão quando um bom samaritano ofereceu-se para dar sua própria camiseta à jovem e com o gesto, especulou-se depois, credenciou-se a levá-la em casa. Ainda restaram muitos comentários solidários ou críticos ao acontecimento e à moça no jantar que se seguiu no Gulliver. A exaltação de Adriana em defesa da ninfa convenceu a todos, menos Delosmar que, diante da repentina mudança de comportamento dela, lembrou-se do intervalo na sessão de beliscões e da rápida ausência da esposa.

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