Romance “O Peso da Luz” tem inspiração em inventor cajazeirense


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Conversando com um jornalista que esteve em Sobral em maio de 1919, o inventor Roselano Rolim, personagem principal e narrador do novo livro de Ana Miranda, descobriu que a Teoria da Relatividade Geral, de Albert Einstein (1879-1955), também era conhecida com o saboroso nome de Teoria do Peso da Luz – porque a luz, vinda de uma estrela em direção à Terra, poderia acabar sendo atraída pelo Sol, como “um fio pesado”.

Essa denominação, de substantiva qualidade poética para uma árida teoria física, segue não apenas anotada nos cadernos de Rolim, mas vai também ao título dessa ficção de 241 páginas.

O Peso da Luz: Einstein no Ceará, publicado pelo Armazém da Cultura, tem como pano de fundo a vinda de comissões científicas ao Estado na tentativa de comprovar as ideias do alemão, cujos estudos chegaram à conclusão de que o tempo, que pode se dilatar, é relativo ao lugar do observador no espaço. Uma história paradoxalmente famosa, mas ainda pouco conhecida.

O livro foi pensado como parte de uma coleção de novelas sobre temas históricos do Ceará, “matéria quase virgem” para a literatura. “Depois que vim morar no Ceará, comecei a me impregnar dos elementos da cultura cearense. Isso foi me dando material interior para que minha literatura partisse dessa realidade”, destaca. Suas crônicas, escritas quinzenalmente aos domingos no O POVO, ajudaram-na ainda mais a ser atravessada pelo cenário local.

A princípio, a ideia para a coleção, segundo Ana, repensava nosso passado cronologicamente. Mas a narrativa de um inventor que nutre grandes esperanças com a vinda de renomados cientistas estrangeiros ao Nordeste conquistou as atenções por aproximá-la de uma teia familiar.

Assim como o personagem, o tio-avô da autora era um inventor em Cajazeiras (PB). Segundo a lenda familiar, um controle remoto fabricado por ele fazia parar máquinas de toda sorte. E, do mesmo modo que na ficção, o parente de Ana também teve a invenção roubada por um estrangeiro e patenteada fora do país. Como ela mesma diz, foi uma espécie de “chave” para abertura de novas portas.

Porque O Peso da Luz traz um caminho ainda inexplorado na ficção dela. Enquanto trabalhos como Boca do Inferno (1989), Clarice (1996) e Dias & Dias (2002) põem a literatura como tema central de investigação, dessa vez, sua pesquisa esteve às voltas com ciências mais exatas.

À medida que lia textos de Einstein e sobre ele, foi encontrando possibilidades literárias. “As estrelas, a lua, os planetas, o mistério do universo, tudo isso foi me alimentando como se fosse a própria poesia. A visão que eu tenho da Teoria da Relatividade é a visão poética”. Principalmente por conta do eclipse total que aconteceu naquele dia 29 de maio de 1919 e foi o responsável por atrair as equipes organizadas pela Royal Astronomical Society, de Londres.

Além disso, o quixotesco Roselano, criado pelo avô, um relojoeiro alemão, é alguém que, por ser inventor (criando uma máquina que nunca para), tem uma potência criativa, assim como seu amigo poeta. “São duas figuras de busca, com uma visão outra do mundo. O poeta na palavra, e o inventor usando a técnica, mas também com um sentimento poético”, analisa. E, nesse contexto, a literatura também não se furta à exatidão e à precisão.

Esses personagens estão diante tanto de um sentimento de provincianismo quanto de exílio, este último presente em todos os livros de Ana Miranda. Roselano tenta transcender a realidade insossa olhando as estrelas. Constrói inclusive um telescópio rudimentar para isso. Como se encontram dois mundos diferentes – aquele do inventor ingênuo e o dos cientistas estrangeiros seguros de si – é uma questão que as páginas da novela tentam responder.

Vinda de Yuxin, alma (2009), seu último romance, que chega “às raias do experimentalismo”, Ana foi se encontrando com uma linguagem mais exata para retratar essa história. “Qualquer trama que você queira abordar será sempre uma questão de linguagem. Sempre. No meu caso, eu sou uma escritora de linguagem”.

“É uma história fascinante que corre na minha família, mamãe sempre a repete. Esse tio, que se chamava Inácio Nóbrega, e morava em Cajazeiras da Paraíba, inventou nos anos 1930 um controle remoto, e cedeu os desenhos e cálculos a um viajante alemão, que prometeu patentear o invento em seu país. Mas desapareceu com os esquemas, e meu tio Inácio nunca mais teve notícias. Foi uma consternação para ele e para a família. É uma homenagem aos inventores em todas as áreas, às utopias e quimeras. Mas também é uma homenagem ao Ceará, pois aborda um tema cearense, que é a comprovação da teoria da relatividade geral, de Einstein, ocorrida durante um eclipse em Sobral, em 1919. Para lá foi enviada uma comissão científica com a missão única de comprovar a teoria do cientista nascido na Alemanha. Interessante é que foi na época da Primeira Grande Guerra, e britânicos e alemães eram inimigos. Além da grande conquista científica, que revolucionou o mundo em tantos aspectos, a comprovação foi uma espécie de vitória do espírito de cooperação contra o espírito bélico.”

O livro – Novela da renomada escritora cearense, Ana Miranda, O peso da luz, Einstein no Ceará, conta a eletrizante aventura de um amante das ciências que narra em forma de memória sua trajetória pelo universo do conhecimento científico. Inventor de uma máquina utópica, relojoeiro de profissão, estudioso assíduo das mais avançadas teorias, com as de Albert Einstein, põe-se, ao lado de um amigo poeta, rumo a Sobral, a fim de comprovar a teoria da relatividade geral a partir de um eclipse total do sol. Mesclando habilmente história e ficção, O peso da luz, Einstein no Ceará, põe lado a lado personagens criados pela ágil e fértil imaginação da escritora e personalidades da própria história, inclusive o próprio Albert Einstein.

O POVO & OUTROS

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