Rio do Peixe (PB): um dos mais expressivos registros de vida pré-histórica no Brasil


Em duas bacias hidrográficas, no Alto Sertão paraibano, estão os maiores acervos brasileiros de iconofósseis de dinossauros

Por Antonio Pralon

O mais importante registro de pegadas de dinossauros no Brasil fica em duas bacias hidrográficas na região de Rio do Peixe, no estado da Paraíba: Sousa e Uiraúna-Brejo das Freiras. Essas duas bacias ocupam 1.730 km2 e abrangem os municípios de Sousa, Uiraúna, Poço, Brejo das Freiras, Triunfo e Santa Helena.

Nelas são encontrados vários iconofósseis preservados em depósitos aluviais, rios, meandrantes e lagos rasos. São sítios paleontológicos que oferecem uma abundância de material para a pesquisa científica.

Esses sítios – denominados iconofossilíferos – já foram identificados e mapeados; são pistas de vários grupos de dinossauro: grandes e pequenos terópodes, saurópodes, ornitísquios quadrúpedes e ornitópodes graviportais, além de um grande número de pegadas não classificáveis.

Conforme dados publicados em 2002, foram classificados 395 dinossauros nessas duas bacias, cujos iconofósseis surgiram no início do período Cretáceo, quando começou a abertura do oceano Atlântico Sul. Movimentos de placas tectônicas controlaram o processo de sedimentação do material fóssil nessas bacias.

O local de maior riqueza de pegadas fósseis – fazenda Passagem das Pedras, no município de Sousa – foi transformado em parque natural, o Monumento Natural Vale dos Dinossauros.

O parque ocupa 40 hectares e é considerado por especialistas um dos sítios paleontológicos mais bem preservados do país. Tornou-se um espaço atraente para o turismo ecológico na Paraíba, dispondo de infra-estrutura de proteção dos iconofósseis e guias treinados para orientar o visitante.


História da descoberta
Há quase 90 anos, o engenheiro brasileiro Luciano Jacques de Moraes descobriu no oeste da Paraíba duas pistas no leito do Rio do Peixe, nas proximidades da Fazenda Ilha. Amostras das pegadas foram, então, enviadas por ele aos Estados Unidos, para serem estudadas por paleontólogos daquele país. Moraes nunca recebeu uma resposta.

Sessenta anos mais tarde, o pesquisador italiano Giuseppe Leonardi – que também era padre – tentara, em vão, recuperar o material enviado por Moraes, imaginando que o mesmo estivesse no Museu Americano de História Natural, em Nova Iorque.

Moraes – que não era icnólogo, nem paleontólogo – fez um trabalho meticuloso de interpretação dos desenhos e fotos das pegadas que descobrira, chegando, inclusive, às prováveis dimensões dos dinossauros que haviam produzido tais vestígios.

Uma das pistas foi interpretada como a de um quadrúpede – Stegosuria ou Ceratopsia – e, a outra, como a de um bípede – Theropoda ou Ornithopoda. Suas interpretações foram posteriormente confirmadas por um pesquisador alemão, da Universidade de Tübingen.

Durante a visita de Leonardi a Sousa, em 1975, descobriu-se – através de histórias narradas por habitantes nativos da região do Rio do Peixe – que as pistas detectadas por Moraes já haviam sido descobertas por agricultores locais muito antes, em 1897, ano que se tornou o marco da descoberta das pegadas.

No linguajar popular, as pistas identificadas por Moraes ficaram conhecidas como “pistas de boi” e “pistas de ema”, em alusão ao número de membros – usados para deslocarem-se – dos supostos autores das pegadas.

Entre meados dos anos 70 e o final dos 80, Leonardi realizou diversas expedições nos arredores de Sousa, descobrindo vários sítios iconofossilíferos, como os de Matadouro, Serrote do Letreiro e Antenor Navarro, entre outros. Nesse período, essas pegadas foram também analisadas por outros paleontólogos – brasileiros e estrangeiros – como também visitadas por turistas.

A partir de 1989, com a volta de Leonardi à Itália, o trabalho iconológico passou a ser realizado por Ismael de Souza Carvalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro que, em parceria com pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco, descobriu novos sítios iconofossilíferos nas bacias de Sousa e Uiraúna-Brejo das Freiras.


A iconofauna dinossaureana
Ao todo, foram mapeados nas bacias da região do Rio do Peixe 22 sítios e 78 níveis, os quais, em grupos, caracterizam uma “formação”. Assim, a Formação Sousa abriga 13 sítios em 60 níveis, que incluem vários grupos e 276 indivíduos dinossaureanos.

Já a formação Antenor Navarro engloba 5 sítios em 12 níveis, com um total de 60 indivíduos. E a Formação Piranhas conta com 4 sítios em 6 níveis, totalizando 33 indivíduos.

Conforme admitem os próprios estudiosos, não é fácil identificar uma espécie de dinossauro pela análise de uma pegada. Assim, as pegadas são associadas a grupos com base em probabilidade. Por exemplo, as pistas de saurópodes são provavelmente de uma família de predadores titanossauros.

De acordo com os estudos do padre Leonardi, alguns dos rastros encontrados na região do Rio do Peixe pertenciam a um iguanodonte medindo 3 metros de altura e pesando 4 toneladas, que teria vivido naquela região há 110 milhões de anos.

Preservação dos iconofósseis
O parque natural de Sousa – criado pelo Decreto-Lei estadual em 1992 – foi tombado como Monumento Natural e designado “Vale dos Dinossauros”.

Graças à ação de entidades governamentais foi possível desapropriar o sítio Passagem das Pedras, onde fica o parque, e também empreender ações – sem alterar os ecossistemas das bacias do Rio do Peixe – para proteger as pegadas contra a ação erosiva das águas.

Segundo informações do Governo do Estado, os investimentos realizados no Vale dos Dinossauros desde o início dos anos 80 até 2002 somam cerca de R$ 1,6 milhões.

Para o bem da pesquisa científica e do turismo ecológico no estado da Paraíba, esperemos que as autoridades públicas continuem cumprindo seu papel de manter preservado um dos mais importantes sítios paleontológicos do país.

Antonio Pralon é jornalista (UFPB) e engenheiro (Unicamp), com doutorado em Ciências da Engenharia (Univ. de Nice, França), é professor universitário e pesquisador-bolsista do CNPq (desde 2001) na área de fontes renováveis de energia. Coordena um projeto de P&D de um Ar Condicionado Solar, no Laboratório de Energia Solar da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em João Pessoa. É membro do corpo editorial do journal Energy Conversion & Management.

Contato: antpralon@yahoo.com.br

Publicado no blog O Frio que Vem do Sol

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