Razão desconhecida

Gaiatice, fuleiragem e o mais puro espírito de cajazeirabilidade

VALIOMAR ROLIM

A Rua Cel. Peba não falava em outra coisa. Tantos acontecimentos explosivos, na mesma manhã, na mesma rua, na mesma casa? Teria de haver uma razão muito forte.

Começou com aquele moço, aparentando de 35 a 40 anos, alto, pele e cabelos claros, bonito feito um querubim, com uma fala enrolada, perguntando onde ficava a casa de Nice.

As moradoras, todas, das mais velhas às mais novas, das casadas às solteiras, das compromissadas às desesperançadas, quedaram-se a comentar.

Não conseguiam entender o que quereria aquele monumento da natureza com Nice, já passada dos quarenta e contando aniversários do último namoro. Era acontecimento para mover muitas conversas, preencher muitas manhãs inúteis daquelas vidas insossas.

Não chegaram a dar vazão às futricas nem à exaltação que o fato certamente merecia quando o forasteiro passou correndo, esbaforido, perseguido por um furioso Boiô, irmão de Nice que, armado de um cabo de vassoura, berrava, nos mais altos brados, a exigir respeito à sua irmã.

Se a fofoca estava grande, cresceu. Se havia muitas vizinhas reunidas, aumentaram. Veio o reforço das mães que haviam levado os filhos à escola. Agora já parecia a roda do homem da cobra, e daqueles que mais atraiam gente. As suposições, das mais estapafúrdias, proliferavam. Diziam ser o estranho um cobrador, especulavam ser um advogado querendo tomar o velho sítio Caiçara, que dera um segundo nome à família, tudo, menos uma razão plausível para a agitação.

As palpiteiras nem tomaram gosto com o assunto e outra aconteceu, o maior quebra pau na casa de Nice. Dessa vez deu para entender claramente, ela gritava, mais alto do que de costume, com o irmão Boiô e o motivo era o tratamento dado ao visitante que, pelos gritos então se sabia, era português.

Se ninguém estava entendendo nada todas ficaram desparafusadas. Fez-se a luz quando, diminuída a ira com o irmão, a balzaquiana procurou o ombro amigo das vizinhas. Aos prantos contou que, desiludida com os raros pretendentes nativos, correspondia-se com Joaquim Crispim, português de Braga, que lhe prometia uma visita para qualquer dia, qualquer hora.

Depositadas todas esperanças de um possível casamento naquele relacionamento, não conseguia admitir que a ignorância do irmão deitasse tudo a perder. A desgraça é que, no momento mais importante da vida de Nice, o Criador permitiu que o seu mais bronco irmão fosse atender à porta e, no seu machismo sertanejo, não pôde se conter quando ouviu do estranho: “estou a procurar a rapariga Nice”.

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