Querido Açude Grande

A COLUNA DE IVÂNIA CRISTINA LIMA MOURA

POR CRISTINA MOURA

TATYANA
6
AM3 – 250×250

Mistérios transpassam, com liberdade, aquele horizonte. Mistérios. É a barra que nos diz algumas frases. É aquela linha lá no final que revigora os ciclos de todos os dias. Querido Açude Grande, aceite meu pedido sincero. Aceite meus sonhos, meus medos, minhas farpas da memória. É de coração. É do mesmo coração que viu um pobre pato nadando, num tapete poluído e desolado. É do mesmo coração que contempla o Sol se pondo, em diversas ilustrações. Se o tempo estiver nublado, os raios vêm rasgando com carinho a atmosfera, alaranjando o tempo. Acalorados ficam seus filhos, açude amado. Se o céu estiver limpo, azul reluzente, eu me calo diante da cena.

Querido Açude Grande, você merece que suas planícies aquáticas estejam limpas. Você merece um Ano Novo repleto de paz e prosperidade. É proibido violentar nas suas margens. É proibido desejar mal a quem passa pelo seu muro, sua barreira, a quem sertanejamente chamamos de balde. Sim, o balde. Quantos olhares por ali. Quantos sorrisos. Pessoas caminham, cantam, namoram, gritam, sussurram, embriagam-se do que quiserem. Vale muito ressaltar a sua glória de existir. É a sua necessidade em permanecer firme nessa lembrança. Sua chance de sobreviver. Seu direito de ser alvejado de admiração. Sua poesia em relevo. Seu gemido submerso.

Aquele calor que bafeja seus fiéis merece ser repensado. Merece que outros mundos o naveguem. Merece que o lixo não seja tão presente e corriqueiro. Dos arredores ao centro, nas plantas que ainda restam e nos bichos que ainda respiram, queremos o seu resguardo. Que os canoeiros pesquem com fartura ou apenas passeiem, sem direção ou compromisso, dando graças à vida. Que seja uma eterna oração, límpida, pacífica e fortalecida pelos desejos de esperança. Que os moradores façam justiça à tradição educacional da cidade. Eduquem-se para preservar a sua fortaleza de palavras, de forma perene.

Querido Açude Grande, minha conversa aqui não é de despedida. Jamais. Minha conversa aqui é dando aquele abraço num velho amigo. Sim, claro. Um amigo que presenciou algumas horas minhas de tristeza e alegria, de silêncio e melodias de violão, de beijos e viagens. Um amigo que precisa não somente da minha atenção, mas de um trabalho político eficaz e respeitoso. A sua salvação é uma corrente não apenas embebida do afeto e da amizade. Precisa de práticas sólidas. Precisa da força pública. Precisa dos poderes constituídos interligados na missão. Precisa de seriedade com a história. Precisa de coragem.

ELIANE BANDEIRA

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.