Presentes de Natal

A COLUNA DE MARIANA MOREIRA

TATYANA
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Chega o Natal. Momento em que o amalgama de sentimentos revela poucas sinceridades e fartas artificialidades em votos de paz, prosperidade, sucesso. As festividades natalinas, convertidas pelo capitalismo em mais um propício momento de vendas e trocas, esmaecem o verdadeiro sentimento do evento: o nascimento de uma criança que, pela tradição cristã, traz a missão de redimir a humanidade e instituir tempos de boas novas. E ao Natal se seguem os festejos de Ano Novo que também trazem como marca da modernidade a troca de presentes, não como reconhecimento de afetos e amizades, mas meramente cumprimento de rituais e conveniência de regras sociais.

Mas o Natal e o Ano Novo coincidem, para muitos, com as férias, escolares ou de trabalho. Um momento que, desenfastiando da labuta diária, o tempo se estica em possibilidades de dedicação a outras atividades. Algumas não tão rentáveis, pela lógica da racionalidade produtivista, mas fugazes, e com resultados mais prazerosos e inebriantes ao espírito, tão massacrado em dias de produtos pasteurizados e comunicações virtuais e líquidas, sem a consistência do papel impresso, do som chiado da vitrola.

Aproveitando o ensejo e, sinceramente, buscando escapar do lugar comum, quero expressar a meus minguados leitores, o ardente desejo de que, não apenas no Natal, mas em todos os dias de nossas existências, a verdade, a dignidade e a sinceridade sejam parâmetros diretivos de nossos atos e gestos. E, como presente para os tempos natalinos e de férias, sugiro uma boa leitura, ao som de músicas que sejam facilitadoras de nossa potencialidade de gente. No balanço de uma rede, enquanto um solitário sábia escapa ao caos urbano, espremido entre redes de fios e cabos de imagens e vozes tecnológicas, sugiro a leitura de Palestina, do jornalista Joe Sacco.

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Com um bom discípulo do jornalismo em quadrinhos, Sacco, como sugere o próprio título da obra, faz uma interessante imersão pelo conturbado e conflituoso mundo do Oriente Médio e, como impressões de viagem, traduz em quadrinhos suas visões deste mundo que, ao Ocidente, pontilha imaginários de guerras, terrorismos, irracionalidades. Como o próprio autor coloca, na apresentação da obra, Palestina não se traduz num compêndio de defesa de posições ou posturas políticas e ideológicas, não sendo esta “uma obra objetiva, se por objetividade tomarmos a ideia ocidental de deixar cada lado contar sua versão, sem se importar que a verdade seja revelada. Minha intenção na obra não é ser objetivo, mas honesto”.

E para acompanhar a leitura de Palestina, além do solitário sabiá, a música de Naldinho Braga e o Carro de Lata, no seu Girando Mundos. Uma agradável viagem por sons e tons de nosso tempo, de nossa gente e de nossos lugares. Sons e tons que teimam em existir, a revelia de uma engrenagem poderosa que uniformiza gostos em músicas de sofrível qualidade técnica e sonora.

Para acompanhar Naldinho Braga, a voz brejeira e cortante de Socorro Lira, uma sertaneja das quebradas de Brejo do Cruz que, com suas cantigas, nos permite o usufruto do bem querer.

ELIANE BANDEIRA

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