Presente de Santo Agostinho

A COLUNA DE IVÂNIA CRISTINA LIMA MOURA

Ao me deparar com a obra Confissões, de Santo Agostinho, me deparei comigo mesma, em muitos aspectos. São aquelas horas em que a gente para e pensa. Pensa sobre o que é finito e infinito. Pensa sobre adição, subtração, multiplicação e divisão. Pensa. Pensa. Pensa sobre o que é dia e noite, o que é corrida e espera. Pensa no que é e no que deixa de ser. Pensa na vida, na morte, no espaço, no tempo. Pensa sobre o primitivo e o contemporâneo. Pensa.

De quando em vez, falo aqui sobre o tempo. Penso nos porquês do tempo. Penso. Penso no tempo que está em tudo, de diversas maneiras. Neste momento, que daqui a pouco não é mais momento, e que também não é instante, paro para ver a eternidade. E como posso apreender essa qualidade da natureza, não sei. É isso que Agostinho nos propõe. Uma reflexão sobre a medida de si mesmo. Lindo. E estamos falando de um livro escrito no final do século terceiro da nossa era. Faz um tempinho. Faz. Mas funciona como uma bússola para diversas gerações e calendários e relógios.

Agostinho foi um dos primeiros autores cristãos a se preocupar em definir o tempo. Perguntou-se, em suas confissões, qual a aparência dessa eternidade. Seria um lugar. E um lugar onde nada passa, pois tudo é presente. As frases, direcionadas a um ser divino e hierarquicamente mais poderoso, são compartilhadas conosco, os leitores. Um diálogo com Deus, que se perpetua com os receptores de uma mensagem. Passamos a fazer parte desse castelo confessional. Que presente.

Essa conversa em tom de carta, em tom de pedido, em tom de desabafo, em tom de reivindicação, cabe perfeitamente nos nossos olhos e ouvidos. É um louvor à plenitude. Ele mesmo, o escritor, assume que sua palavra não pode explicar um empreendimento tão majestoso quanto o eterno. Garante que sua língua não consegue construir um conceito sobre a infinitude. Não pode traduzir o tempo.

Tempo, tempo, tempo, tempo. Como diz a canção-poema caetaneada: tambor de todos os ritmos. Só o tempo mesmo. Agora não sei se é poema ou música, se canção ou regimento, se outra confissão em forma de melodia. Se eu pedir a Santo Agostinho para me auxiliar nessa tarefa, ele vai dizer que o passado não existe, que o futuro também não existe.

E o que fazer com a História, não sei. Vamos pensar. Preciso de datas, documentos, testemunhas, falas, fontes, períodos, contextos. Números. Nossa percepção humana ainda necessita de números. Mas, tudo isso é presente, pois quando eu pesquiso, num momento exato, estou no presente. Não é mais o que passou. Também não sei o que será da minha imaginação. Olho para a tela, para as tintas e os pincéis. O que vai ser da minha pintura, não sei. Se eu imaginar, quero o futuro. Não existe. Será presentificado.

Essa conversa com Santo Agostinho foi um presente do presente. Aliás, é. A conversa é, na verdade, a leitura. Toda leitura, preste atenção, é conversada. Autor conversa com leitor, que conversa com autor, que conversa consigo mesmo. E ainda há quem repita o assunto.

E a conversa agora, aqui, é esta minha confissão semanal. Pode durar mais semanas, dependendo do teor de longevidade que o texto chamar para cada um. Pode durar meses. Pode durar anos. Mas o eterno, somente, é o tempo. Pois é. Fiquei amiga de Agostinho. Discordo, porém, quando ele nega a astrologia enquanto nobre ciência. Olha, vou confessar: sou aquariana legítima. Presente.

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