Preconceito será?

A COLUNA DE SAULO PÉRICLES BROCOS PIRES FERREIRA

TATYANA
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[dropcap style=’box’]E[/dropcap]u vi o que nosso Presidente “Carioca”, no sentido mais pejorativo que podem os habitantes do Rio de Janeiro podem merecer, disse semana passada sobre todos nós nordestinos: “os estados Paraíba”. Eu vivi o fim de minha infância e o começo de minha adolescência Cidade maravilhosa, que de maravilhoso nos dias de hoje  tem o crime e a corrupção mais irresponsável, que mesmo no país da corrupção nos enoja, pois quando lá residia tinha o apelido de Paraíba, mas por causa que eu era efetivamente paraibano, e a gente era paraibano, com carro, apartamento bom em Copacabana, e também frequentava e pagava os mesmos lugares onde nossos amigos iam, ou seja, éramos de origem diversa, mas da mesma classe social (ou econômica) deles, assim nunca liguei pra esse apelido. Então como o passar do tempo, eu fui vendo os cariocas entre eles mesmos chamavam de ser “paraíba”, era o peão de obra, o retirante miserável, o porteiro analfa, assim, os de mais baixo nível de educação, ou principalmente os da base da pirâmide da distribuição de renda, ou seja, ‘Paraíba” eram os pobres, os ignorantes, os mal educados. Há uma praça em Copacabana, cujo nome oficial é Praça Sezerdelo Correia, onde era situada a agência dos Correios no Rio, que por causa de nos finais de semana abrigar sob a sombra de suas árvores, os nordestinos, que iam encontrar seus conterrâneos e saber das novidades de sua terra, pregaram apelido pejorativo de “Praça dos Paraíbas”.

Então, nada de se espantar que um nescio, absolutamente despreparado, e sem a educação que um presidente de todos os brasileiros devem ter falou, mesmo em off, que apareceu com destaque nas mídias, ele apenas verbalizou o que todos os cariocas o fazem cotidianamente, como em São Paulo todo nordestino é chamando de “baiano”; para exemplificar temos que o martelo pneumático que perfura o asfalto, tem o preconceituoso apelido dado pelos habitantes da Paulicéia de  “Lambreta de baiano”, então vivemos sendo vítimas de todo o tipo de preconceito por nossos irmãos dos estados meridionais.

Pronto, posto isso, vem a pergunta: porque este preconceito, escandaloso para qualquer nordestino que possua um mínimo de dignidade.

Mas se nós analisarmos de um certo ângulo, eu pelo menos não conheço uma rede de lojas, por exemplo, que de tanto crescer, veio a ter filiais no sul do país, e recíproca tem sido a regra.

O que chega lá pelos estados mais ao sul, são nordestinos pobres, antes, fugindo da seca e da fome, com pouco estudo, e educado na roça.

Tempos atrás, já aconteceu, haviam as “Pernambucanas”, que já pelo nome, se sabia sua origem, instalada em todo Brasil.

Aqui, para o sulista (vamos generalizar também), é a terra do bolsa família, eles acham que isso é uma esmola retirada de seus impostos, e entregue a “uma cambada de vagabundos”, uma espécie de “parasitas do estado”.

Agora, em certa parte eles podem se justificar, pois, receber recursos do estado sem contrapartida, ou com uma contrapartida mínima (manter os filhos no colégio é mais uma obrigação dos pais e menos uma atividade remunerada), e quem vive por nossas bandas sabe, e é divulgado na grande e pequena mídia, se faz muita malversação com esses minguados recursos, embora não seja o mal emprego dos recursos oriundos desses programas sociais mais frequentes, são o que mais aparece, um mau exemplo registrado vale por mil bons exemplos, que nunca são registrados porque coisa boa não dá IBOPE, o que o povo (ô raça ruim) quer mesmo ver, é desmantelo, os casos vexatórios.

Então, aos olhos dos sulistas, continuamos a ser os Paraíbas, os Baianos, etc.

Na minha opinião, a gente deveria reagir não era apenas com indignação, mas sobretudo com trabalho, estudo e pesquisa. O Semi-Árido nordestino tem potenciais e esses devem ser desenvolvidos

A última grande ideia que se teve, com impacto econômico em nossa região, foi no Séc. XIX, quando se estabeleceu o “binômio algodão – gado”, um cultivar oriundo da África subsaariana (do Mali), e nosso gado vacum, aproveitando os restos culturais do algodoeiro. Nesse tempo, se estabeleceram os Usineiros de Algodão: os Coronel Matos e Dr. Severino Cordeiro aqui em Cajazeiras, os Gadelha e os Oliveira de Sousa, os Bezerra de Juazeiro, os Baquit e os Carneiros de Quixadá, entre tantos outros; esses chegavam nos grandes centros e eram detentores de respeito e admiração. Só aqui em Cajazeiras estavam estabelecidas duas multinacionais, a Anderson Clayton (americana) e a Sanbra (argentina).

Mas, desde que começo da década de 60, a produção de algodão do Brasil Setentrional começou a decair, e na década de 1980, veio o “bicudo do algodoeiro” que foi a nossa última pá de cal. Desde muito se havia sinais de esgotamento de tal cultura, pois essas empresas estrangeiras já na década de 70, já tinham se mudado para o Sudeste e hoje estão no Cerrado.

Aqui, apesar de ser uma região semidesértica, tem potencial, a caatinga – mata branca na língua dos índios que aqui habitavam, tem muito a ser estudado, podia dar o exemplo da mamona, mas vou dar um que sempre me chamou a atenção, um “mato”, que o povo chama, acho, rosa seda, que solta umas bolinhas de fibra, e cujas folhas secas, serve como pasto para animais. Posso estar errado, e ser um equívoco, mas eu nunca vi um trabalho sequer sobre essa planta, nem que fosse para dizer que ela não serve.

Diferentemente, Quando os espanhóis chegaram ao México, começaram a desenvolver um mato que lá crescia, que hoje conhecemos como tomate.

Enquanto isso continuamos a querer trabalhar com coisas que não vão dar certo, continuamos pobres e vítimas de preconceitos.

P.S. – Dedico essas ao médico que ora nos deixa, Antônio Augusto Araruna, que mesmo polêmico, dedicou sua vida a tratar esses “Paraíbas” na Paraíba, muito amigo de meus pais, e mal compreendido por seus conterrâneos. Meus respeitos e minas homenagens. Um grande se foi.

ELIANE BANDEIRA

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