A Praça da Matriz Nossa Senhora de Fátima é um lugar histórico. Está na raiz da formação urbana de Cajazeiras. Ali foi construída a primeira capela, mais tarde, transformada na atual matriz. Diz-se que Mãe Aninha, quando tudo era mata, teria apontada a colina onde ficaria a igrejinha, pela alegria de olhar, de sua casa de morada, o lugar sagrado destinado ao filho padre. Observava da sua casa, levantada pelo marido, Vital de Sousa Rolim, no terreno hoje ocupado pelo Cajazeiras Tênis Clube.

A Praça da Matriz serviu no passado, e ainda hoje é usada, como área de lazer para os cajazeirenses. Houve a época das retretas, grande atração para as famílias, a banda de música a tocar seu repertório para alegria dos encontros de amigos e parentes, furtivos namoros ou diversão da criançada.

Aquela praça foi, também, palco de grandes festas religiosas. Missas campais, saída e chegada de procissões, missões de pregadores famosos e outros eventos destinados a manter ou aguçar a fé dos cristãos. É certo que após a construção da catedral, na rua Padre Rolim, houve uma diminuição da importância da velha praça e da própria Matriz. Este ano, o bispo Francisco de Sales decidiu, acertadamente, realizar a missa em ação de graças, no festivo dia 22 de agosto, na histórica igreja, alegando, entre outras razões, que ali estão os restos mortais do padre Inácio de Sousa Rolim.

No tempo do Império o catolicismo era a religião oficial. Padres católicos integravam os quadros de serventuários públicos. No interior das igrejas, realizavam-se as eleições para selecionar votantes e eleitores, que elegiam vereadores, juízes de paz, deputados, senadores. Foi na Praça da Matriz que ocorreu, justo num dia de eleição, o episódio sangrento, conhecido como morticínio eleitoral de Cajazeiras, o acontecimento político mais importante do século XIX em Cajazeiras, não apenas porque deixou seis mortes e alguns feridos, mas também pelas consequências derivadas de sua repercussão, como tento mostrar na minibiografia de Antônio Joaquim do Couto Cartaxo, irmão do tenente João Cartaxo, morto à bala no dia 18 de agosto de 1872. O estudo, de tamanho reduzido para atender exigência de ingresso na Academia Cajazeirense de Artes e Letras, é um dos 38 perfis biográficos do livro Patronos e Patronesses, lançado ontem no Teatro ICA. Ele foi publicado, separadamente, com o título de Antônio Joaquim do Couto Cartaxo e a formação de Cajazeiras.

Tudo isso tem a ver com a nossa mais antiga praça. Modificada, ao longo dos anos, em suas dimensões originais e nos arranjos urbanísticos feitos, em diferentes momentos, pela prefeitura municipal. Talvez a mais expressiva mudança tenha sido a que resultou da demolição de duas casas nos meados do século XX, visando estender aquele espaço público até a rua Joaquim Costa. Entre as casas desaparecidas estava a da viúva Ana Josefa de Jesus, segunda esposa do português Joaquim Antônio do Couto Cartaxo, pais do jovem tenente, de apenas 24 anos, assassinado no longínquo ano de 1872.

Foi Ana Josefa de Jesus quem deu início formal ao processo, através de queixa crime contra o alferes João Pires Ferreira, acusado da autoria intelectual do morticínio eleitoral. A Justiça deixou impune os assassinos. Daí nasceu a lenda dos seis pares de orelha, guardados por muitos anos, como prova da execução de presumíveis autores materiais da chacina. Mas isso é uma longa história…

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