Populismo de porta de mercado

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O presidente Jair Bolsonaro é um provocador. Usa o convescote com apoiadores à saída do Palácio da Alvorada para fustigar adversários, militantes partidários, jornalistas, e não sei mais que tipo de “inimigo”, com a desenvoltura de animador de torcida de time de futebol. O alvo tanto faz ser um profissional da imprensa, no exercício de suas tarefas, ou uma autoridade investida em legítima representação conferida pelo voto. Assim foi, dias atrás, quando Bolsonaro falou no preço da gasolina, ao tentar responsabilizar os governadores: Eu zero o federal hoje se eles zerarem o ICMS. Está feito o desafio aqui, agora. Eu zero o federal hoje, eles zeram o ICMS. Se topar, eu aceito, tá ok?

Conversa de porta de mercado!

O presidente da República trata dessa maneira um tema tão sério e fundamental para o Brasil! Logo as redes sociais propagam a asneira do aprendiz de populista… Bolsonaro fala bobagens primárias no lugar errado. O assunto é muito mais amplo do que as arengas ideológicas, aventadas com a leviandade de conversa de botequim ou de inconsequentes postagens na internet. Esse tema – reforma tributária, atrelada ao pacto federativo – mexe com o cerne da democracia, do federalismo, da descentralização das ações no regime republicano, no necessário equilíbrio que deve existir nas relações entre instâncias de governo. E com a vida das pessoas.

Desta vez, ao invés de mandar procurar o Posto Ipiranga, Bolsonaro decidiu, ele mesmo, sentenciar. Um desastre. Quem sabe, já pressentira que o chefe daquele posto anda meio tonto… Só assim se explica a fala do ministro Paulo Guedes, atribuindo ao funcionalismo público a culpa pelo desequilíbrio fiscal e os males do Estado brasileiro. E ainda chamando o cara de parasita! Que feio! Guedes arrependeu-se. Não era para menos. Integrantes qualificados da mais sólida base de apoio do governo, formada pela comunidade policial-militar, o recriminaram com veemência. Aquela base foi atingida, diretamente, pelo enviesado diagnóstico do ministro da Economia.

Depois foi a vez dos governadores.

Perante os 27 governadores – eleitos ou reeleitos pelo voto popular em 2018 – Paulo Guedes deixou atrás da porta um pouco de sua arrogância habitual; depois, reiterou o pedido de desculpas: me expressei mal, disse. Então, ouviu mais do que falou. Funcionário público de carreira, Paulo Câmara, jovem governador de Pernambuco, com a elegância habitual, chamou o feito à ordem:

Hoje, infelizmente a gente está vivendo um debate sobre a questão dos combustíveis que é fora do necessário. Implantou-se no imaginário popular uma saída rápida que não existe. Um debate como esse saiu da beira do racional… São 27 governadores, eleitos pelo povo, que precisam ser chamados e não vão se omitir em ajudar o Brasil no momento de dificuldade pelo qual passa o País, mas a gente precisa ter muita seriedade para fazer o debate adequado, correto, transparente, pois é isso que a população quer. 

Muita seriedade.

Olha aí, o parasita deu lição ao presidente que, pelo jeito, ainda veste o pijama de capitão. Faz mais de 13 meses que Bolsonaro senta na cadeira – antes ocupada por figuras como Epitácio Pessoa, Eurico Dutra, Juscelino Kubitschek -, e continua sem perceber a natureza, a significação, a magnitude do cargo, para o qual foi alçado pelo voto da maioria da população. Prefere distrair-se como aprendiz de populista de meia tigela.

ELIANE BANDEIRA

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