[PEPÉ PIRES FERREIRA] Indiferença e cinismo


NERINHA-FILHA

Agora há pouco tempo, se vem a baila um tema lamentavelmente recorrente: uma menina de oito anos (se não me engano, mas não faz diferença se tivesse oitenta) que passa quatorze dias bolando pelos nossos centros de saúde daqui para Patos, e com a embromação que infelizmente grassa em nossa cidade e região, vem a óbito, ao que parece, pois nem sou médico, para diagnosticar e tratar, nem sou deus para ter o dom da cura por complicações decorrentes de apendicite… Isso caro leitor, no século XXI se morre de males que seriam tratados no século XIX, e até bem antes. No tempo do antibiótico, do avião (que ainda não pode pousar oficialmente em nossa cidade), do computador e do diagnostico por imagem; ainda se morre por apendicite mal diagnosticado. E se fosse a exceção, tudo bem, mas o que temos observado em termos de nossa saúde pública e até nem isso, é que está se transformando na regra.

Caro leitor, viver em nossa região seta se transformando em atividade de risco e cada vez mais alto. Aqui é o seguinte: arranje um rezador, um macumbeiro, um pastor, um raizeiro, seja o que for para viver lhe tratando, pois se for para algum centro de saúde, é mais garantido mesmo fazer logo o plano funerário, que nossos hospitais estão se transformando em ante-salas de cemitérios. Um absurdo, mesmo para quem já perdeu como a minha família três membros e quase vai o quarto: perdi três tios e se eu não tivesse tirado às pressas para Sousa, teria ido meu pai. Pergunto: O que nossos estudantes de Medicina estão aprendendo? Ai seria bem assimilável o caso dessa luta pelo IML, já que não se trata nem cura, pelo menos se diagnostica a causa mortis. Pronto, resolvido o problema…

Agora, e o caso que me levou a escrever essa crônica das mortes anunciadas: Vi uma entrevista do Diretor o I… não sei o que… Julio Bandeira (sai daí, Dr. Julio…) anunciando que o instituto estava à disposição da família da menina para dar assistência… Só se for funerária. Isso é o cúmulo do cinismo. Durante quatorze longos dias, e bem o sei do que se trata, ficaram naquele jogo de empurra até a menina morrer de infecção generalizada, depois vem dizer que estava à disposição… Para ir ao enterro, eu que sou engenheiro também estou, mas na hora do pega p’ra capar, ou seja, quando era só dizer o que a então paciente, hoje defunta tinha, e operar nada foi feito. Se fosse ninguém poderia iria ao rádio reclamar, iam celebrar missas em Ação de Graças. Hoje, cada vez mais raras, e as de corpo presente e de sétimo dia cada vez mais frequentes.

Francamente é hora de todos nós tirarmos essas máscaras e chegarmos a conclusão que nossa medicina está falida, não funciona, pedir para ir ao banheiro e perquirir se existe alguém competente para comandar o barco. Pois com indiferença e cinismo como é o comportamento presente, é muito melhor emigrar para onde existe medicina que resolva.

Fica registrada minha indignação quanto a esses maus profissionais, isso se é que podem ser chamados de profissionais, um título mais adequado seria o de criminoso…

pepepires7@gmail.com

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