Pedido de mãe

TATYANA
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VALIOMAR ROLIM

Engenheiro mecânico, Saulo Péricles, o Pepé, pessoa das mais inteligentes, nunca havia trabalhado em sua profissão. Agora talvez pensasse em conseguir um bom emprego. As sucessivas mudanças na economia, tenham sido fatores que determinaram aquela mudança de opinião no herdeiro do outrora maior império agro-industrial da cidade.

Do pai, Dr. Waldemar Pires Ferreira, herdou o temperamento distraído que tornou famoso e querido aquele grande médico de quem Cajazeiras ainda é saudosa. Lembrado não só pela grande carreira médica mas, talvez com igual intensidade e simpatia, por episódios como aquele quando esqueceu seu velho fusca na cidade de Souza e, em Cajazeiras, foi à polícia prestar queixa do roubo do automóvel.

Da mãe, Dona Íracles Brocos Pires Ferreira, Dona Ica, que em vida fora exponente intelectual, grande incentivadora dos meios sociais, artísticos e culturais, herdou sua veia perspicaz, crítica, cômica e verve que o alçavam à condição de um dos melhores papos da cidade.

Recém empossado, o prefeito enfrentava um clima de verdadeira comoção nos meios de imprensa local ao anunciar o nome da secretária de cultura. Não era, em absoluto, o nome preferido da mídia que, estava certa da designação do seu candidato. O não atendimento a esse lobby fazia com que a campanha crescesse a cada dia. Os programas de rádio, as sucursais locais dos jornais da capital, toda as manifestações de comunicação de massa pautavam-se num só ponto: a escolha que fez o prefeito.

Dentre os maiores canais daquela insatisfação estava o programa radiofônico “Boca Quente”, detentor de grande audiência no rádio regional, que dedicava-se com esmero àquele tema; e, para fazer chacota, inventou que o prefeito teria sonhado com Dona Ica que pedira o emprego para a secretária que teria sido sua amiga.

Pela força do nome de Dona Ica, a brincadeira tomou um curso diferente daquele que fora planejado quando fora concebida. O respeito à sua memória estava fazendo com que a polêmica fosse encerrada com prejuízo para os opositores da secretária. O povo, diante daquele fato novo, já via na escolha um ato de justiça e o prefeito já comemorava o desenlace.

Como tudo só acaba no final, Pepé, foi à Rádio Difusora no horário do programa “Boca Quente”, pediu para ser colocado no ar, foi atendido e a cidade toda ouviu: “Estranho profundamente o fato de que minha mãe, sabendo que estou desempregado, peça emprego para essa senhora e não para mim, seu próprio filho”.

DO LIVRO ‘O CRONISTA DO BOATO’

ELIANE BANDEIRA

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