POR NONATO GUEDES

Seis paraibanos foram agraciados, nos últimos dias, no Festival de Cannes, na França, com o “prêmio do júri”, terceira posição mais importante do certame, pela sua performance em “Bacurau”, filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Mas até agora os poderes públicos que alegam investir em Cultura sequer parabenizaram Buda Lira, Thaderlly Lima, Jamila Facury, Ingrid Trigueiro, Suzy Lopes e Danny Barbosa e, menos ainda, cogitaram prestar qualquer homenagem ao sexteto festejado em Cannes e na crítica especializada do Sul e Sudeste do Brasil. O filme retrata aspectos da realidade do Nordeste, misturados com pitadas surrealistas, e foi rodado, em grande parte, em uma cidade do interior do Rio Grande do Norte. A avaliação dos críticos é de que se trata de obra contemporânea e coerente com a atual situação política-institucional que o país vive no governo de Jair Bolsonaro.

A insensibilidade dos poderes públicos paraibanos para reconhecer o talento e a contribuição de artistas da terra na divulgação do próprio Estado além-fronteiras é uma característica da história local. Em 1986, a atriz cajazeirense Marcélia Cartaxo surpreendeu o mundo ao ser agraciada como melhor atriz no Festival de Cinema de Berlim pelo seu desempenho no filme “A hora da Estrela”, de Suzana do Amaral. Ao voltar à Paraíba para receber as honras a que tinha direito, ela ficou desapontada com a recepção. Em sua terra, onde chegou acompanhada de uma equipe da TV Globo, teve apenas o carinho de populares e antigos parceiros de teatro e nenhuma atenção das autoridades, que se negaram até mesmo a arranjar passagens de ônibus, de João Pessoa a Cajazeiras, para os artistas do grupo “Terra”, também convidados para as filmagens que foram exibidas no programa “Fantástico”.

Na época, em declarações ao “Correio da Paraíba”, Marcélia desabafou: “Acho tudo isso uma falta de respeito porque o prêmio que ganhei não é uma coisa só da Paraíba, é universal”. Aos 23 anos, ela ganhara o “Urso de Prata” sob uma temperatura de 15 graus abaixo de zero e os aplausos de celebridades internacionais como a atriz Sophia Loren. A Associação Paraibana de Imprensa, em conjunto com o falecido empresário Luciano Wanderley, dono dos cines Plaza e Municipal, em João Pessoa, ainda promoveu uma pré-estreia do filme, antecipando-se ao seu ingresso no circuito comercial, mas Marcélia não ficou satisfeita com a receptividade de público. A indiferença da Paraíba foi um capítulo presente na trajetória de Marrcélia antes e depois da consagração. Quando estava em São Paulo, batalhando passagens e ajuda de custo para ir a Berlim, tentou inutilmente as portas dos órgãos culturais do seu Estado. “Ninguém se movimentou para nada”, reclamou. Mesmo depois de virar estrela internacional, a acolhida não melhorou. Depois que chegou a São Paulo, procedente de Berlim, recebeu apenas um telegrama, passado pelo diretor do campus da UFPB de Cajazeiras, professor José Leite. As passagens dos 12 artistas do grupo “Terra” foram custeadas por um vereador de Cajazeiras – Abdiel de Souza Rolim, depois que eles peregrinaram por várias repartições e chegaram a fazer “vaquinha” para juntar dinheiro.

Em Cajazeiras, Marcélia foi cercada por um misto de curiosidade e desinformação. Desfilando em carro aberto pelas ruas da cidade para as filmagens da Globo, nem sempre era reconhecida. Houve um motorista de táxi que pensou tratar-se de manifestação de euforia pelo pacote econômico do governo federal que congelou preços de produtos e tarifas, e uma senhora viu na passeata uma homenagem a uma aluna que tinha se saído bem nas notas escolares. Em Berlim, Marcélia cumpriu intensa maratona, concedendo incansáveis entrevistas durante 11 dias. Não faltaram propostas de trabalho. José Dumont, o paraibano com quem contracenou em “A Hora da Estrela” recomendou seu nome à Globo e o cineasta Pedro Jorge acenou-lhe com papel de destaque em futuras produções. No filme de Suzana Amaral, Marcélia fez o papel de Macabéa, uma nordestina que busca integrar-se, compreender e sobreviver na cidade grande mas enfrenta sérios desafios. “Me identifico com Macabéa no sentido de que também sou uma nordestina vivendo na cidade grande. Mas somos diferentes porque, enquanto Macabéa estaciona, se desliga do universo das pessoas, eu vou à luta. Chego a dizer que consegui realizar o sonho de Macabéa de ser uma estrela”, explicou.

Marcélia logrou conseguir papéis em novelas da Globo e participações em filmes do circuito comercial. Nunca perdeu os laços com Cajazeiras, onde tudo começou. Ela fora descoberta por Suzana Amaral em São Paulo quando fazia apresentações junto com o grupo “Terra”, de Cajazeiras, no projeto “Mambembão”. Suzana deu-lhe um livro de Clarice Lispector, que inspirou o filme e avisou-a para ficar em expectativa. Mais tarde trocaram correspondências e Marcélia foi chamada a São Paulo para fazer um teste, sendo logo aprovada. O elenco paraibano de “Bacurau” evita polemizar sobre falta de homenagens na Paraíba. Em sua rede social, Buda Lira, que esteve em Cannes, apenas exortou: “Gostaria muito que os brasileiros e brasileiras assistissem a trama de “Bacurau”.

NONATO GUEDES É JORNALISTA

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