Para mães da lua e amazonias

A COLUNA DE MARIANA MOREIRA

Na minha infância, nas bocas de noite enluaradas, o canto triste e arrastado de uma ave exercia sobre mim um sentimento dúbio. Por um lado, me encantava o som prolongado e forte que se espraiava pela caatinga tingida dos brancos algodoais, enquanto uma lua iluminava trilhas e caminhos seguidos na direção das renovações e visitas de prosas e chás. Por outro lado, me deixava melancólica a tristeza encarnada naquele canto, como a prantear mortos travestidos de saudade ou mesmo antecipar sua ruína determinada pela devastação da mata que lhe dava abrigo e pouso.

Meu pai explicava que a dona daquele canto era a mãe da lua que “traduzia para os homens a beleza do sertão nas belas noites enluaradas”. O canto sempre vinha da direção leste, dos recônditos das serras do Redondo e do Tambor que, do nosso terreiro de Impueiras, desenhava no nascente um traço perfeito do casamento da natureza com nossos sonhos. Um som que, acompanhado de tantos outros sons e tons de bacuraus e rasga mortalhas, me acalantava até a chegada do sono.

Depois, na imprecisão do tempo adolescente, vi desaparecer o som e o canto da mãe da lua. Acreditava que as secas lhes tinham açoitado para outras paragens mais promissoras. As serras que lhes dava abrigo na infância permaneciam cuidadosamente desenhadas no nascente. A lua sempre despontava radiante nas noites infindas como a contrariar tua ausência. Meu pai explicava essa falta afirmando que “com certeza, derrubaram as árvores que lhes dava guarida” e de onde, a noite, contemplando e saudando a lua com seu canto, ela desenhava voos majestosos no céu prateado na cata de insetos e outros ingredientes de sua dieta alimentar.

E a mãe da lua desapareceu na proporção em que as árvores da caatinga cedem lugar para o capim da pastagem dos bois. O capim que chega associado ao uso extensivo e intensivo de herbicidas que exterminam insetos e plantas nativas, lócus natural de reprodução de cururus e outros bichos que engrossavam o coral da mãe da lua nas noites enluaradas e de invernadas abundantes.

E não adianta teimar em dizer que isso é o ritmo natural do desenvolvimento e do progresso. Insisto, com toda minha veemência, em não aceitar uma ordem natural da história. Prefiro cantar com o Vital Farias e anunciar aos quatros ventos que,

Toda mata tem caipora para a mata vigiar

Veio caipora de fora para a mata definhar

E trouxe dragão-de-ferro, prá comer muita madeira

E trouxe em estilo gigante, prá acabar com a capoeira.

 

Fizeram logo o projeto sem ninguém testemunhar

Prá o dragão cortar madeira e toda mata derrubar

Se a floresta meu amigo, tivesse pé prá andar

Eu garanto, meu amigo, com o perigo não tinha ficado lá.

 

E assim, como as mães da lua de minha infância, hoje a Amazônia arde nas chamas do agronegócio, da especulação, da grilagem. Tudo sob a proteção, anuência e estímulo governamental que defende o lucro sobre todas as possibilidades de vida e convivência. E assim,

(…) o dragão continua a floresta devorar

E quem habita essa mata, prá onde vai se mudar???

Corre índio, seringueiro, preguiça, tamanduá

Tartaruga: Pé ligeiro, corre-corre tribo dos Kamaiura.

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