Pancho Galvez, os Penetras e a ‘dedada’

TATYANA
8
AM3 – 250×250
VALIOMAR ROLIM

[dropcap style=’box’]O[/dropcap]s comerciantes da cidade nem estranharam ao receber mais aquela comissão. Como sempre, tudo que era novidade começava com aquelas visitas em que, em nome das mais importantes causas, eram solicitados a contribuir, custear, patrocinar e, até, investir naquela efeméride que teria o condão de transformar seu negócio ou produto em algo nunca dantes imaginado.

Daquela vez era a apresentação de um grande cantor mexicano, o “famosíssimo” Pancho Galvez, a voz que encantava o México. O mexicano que fizera pontas em vários faroestes americanos, como aquela que cantava numa seqüência em que os bandoleiros faziam hora, ao redor da fogueira, aguardando o ataque no dia seguinte. Cajazeiras teria o privilégio e a honra de ter aquele artista internacional apresentando-se em praça pública, gratuitamente, tudo num projeto do governo mexicano, objetivando divulgar a música daquele país no Brasil, complementando com aquele contato pessoal o trabalho feito pelo cinema, à época, a manifestação artística que mais rompia fronteiras e aproximava os povos.

Era preciso fazer uma grande festa para a estrela norte-americana. Aquela comissão saía no comércio local vendendo quotas de patrocínio para arcar com as despesas de transporte e hospedagem do astro e sua banda. Se o comerciante, por falta de recursos ou desconfiando da alta soma a ser gasta só para transportar e hospedar aquela troupe, não comprava uma quota, pediam um brinde para ser distribuído durante o show, quando seu estabelecimento ou produto seria divulgado.

Os organizadores foram competentes. Estava tudo pronto. A avenida Presidente João Pessoa toda enfeitada, cheia de gambiarras, repleta de gente, só faltava começar a festa. No bar Centenário, ao lado direito da avenida, estavam concentrados os “Penetras” – turma de estudantes da legendária década de setenta – bebericando e aguardando alegremente o início do espetáculo, quando da chegada das bonitas e apimentadas filhas do dono do bar que, com sua presenças, multiplicaram a alegria e barulho que já era grande.

Bosco Lira, que funcionava como mestre de cerimônias do evento, mal começou seu trabalho e já os “Penetras”, sempre acompanhados das moças, davam mostras de que aquele não seria um show comum. Reclamou, apelou para o amor à cidade, lembrou que o cantor estava em excursão por todo o Brasil, que, por onde andasse, levaria má fama da cidade e que, o pior, Cajazeiras ficaria com péssimo nome no México. Conseguiu uma pequena trégua e anunciou o cantor.

Foi um verdadeiro caos. Ovos, tomates, bananas, laranjas, tudo foi usado como petardo contra o cantor. O barulho era ensurdecedor. A multidão aderiu à balbúrdia. Bosco Lira, confiante na trégua conseguida há pouco, voltou ao palco pensando conseguir acalmar a turba. Inútil, a confusão aumentou. Tentaram a medida extrema, confessar o que os “Penetras” já sabiam: que o cantante não se chamava Pancho Galvez, que nunca fora no México, que aprendera aquela postura e sotaque vendo os filmes de Cantinflas e que tudo era falso, menos uma coisa, era um grande cantor romântico e pedia uma oportunidade para mostrar seu trabalho.

O azar de Pancho Galvez foi que, tentando diminuir a exposição a um possível desmascaramento, diminuiu o contato com as fãs e, quando as coquetes filhas do dono do bar Centenário lhe fizeram a tietagem, foi ríspido e, como elas nunca foram de deixar barato, no primeiro descuido do cantor, catucaram-lhe entre as nádegas, aplicando-lhe uma brasileiríssima “dedada”, obtendo uma resposta nada mexicana:

– Frescura, porra!

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DO LIVRO ‘O CRONISTA DO BOATO’, DE VALIOMAR ROLIM

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ELIANE BANDEIRA

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