Os silêncios que falam na poesia de Amanda K.

Natural de Cajazeiras, Amanda K. está radicada em João Pessoa. É advogada e foi vencedora do Concurso Nacional de Contos e Poesia

TATYANA
AM3 – 250×250
LINALDO GUEDES

Fazer poesia não é uma coisa fácil. Sim, escrever é de todo uma atividade difícil. Mas o problema da poesia não é ser fácil ou difícil. É ser. Em poesia você É ou não É poeta. Não adiantam oficinas literárias, cursos de escrita criativa, dicas de professores e amigos já mais escolados no ofício poético se você não É. Quando você É, você já nasce sendo. As técnicas que aprende, as dicas que assimila, só servem para aprimorar sua poética, a torná-la acima da média. Quando você não É, não vai ser nunca. As técnicas, dicas e outras coisas só vão servir para pasteurizar ainda mais sua escrita, a torná-la igual, sem sal, insossa. Na prosa é mais fácil enganar. Na poesia, não. Ou você É ou não É.

O livro de estreia de Amanda K. na poesia é amargo, às vezes, dolorido, noutras, irônico na maioria das vezes, mas muito intenso, muito lírico, de muito verde poético. O título em si remete a algo não convencional nos tempos de hoje. Não estamos na época do vinil, apesar da indústria tenta trazê-lo de volta à tona. Por mais que volte, no entanto, fica mais restrito a um grupo, digamos, mais Cult, “descolado”, como dizem os mais jovens. Talvez a referência seja porque a poesia de Amanda K. surge como um bom e velho disco de vinil. Não no sentido de ultrapassado, de defasado. Mas, sim, de uma poesia moderna, ágil, rítmica, surreal em alguns aspectos. É preciso lê-la, ouvi-la, como se coloca um bolachão na vitrola e se viaja na melodia.

Comecemos pela primeira faixa do disco, quer dizer, do livro, a falar do vento que “zombe” e assombra. Depois, é a hora de alçar voo sobre a asa deste mesmo vento. Ou seria de outro? Talvez seja o vento de Maria, “livre demais” para estar num só sexo. Uma transgressora que abusa do lirismo “para adoçar os dias”, feito um passarinho, que vem beber água e se vai no silêncio. Dia desses, aliás,vi na TV uma entrevistada falando do silêncio das mulheres, representada na mãe de Jesus. O livro de Amanda fala desses silêncios, que barulheiam em suas páginas. O silêncio da mãe, diante do desenho do cavalo ou da transformação em arco-íris, por exemplo.

Tem também o silêncio da nostalgia, troçando da velha esquizofrênica, da rebeldia inventada e da verdade que é mentira. Algo que lembra Adélia Prado, em alguns momentos:

pra mim
que já pulei

todos os muros
(rebeldia inventada)
nada me anima
ou aquece
a não ser
tuas mãos
massageando meu ego

O silêncio da esperança está presente com força na poesia de Amanda K. Afinal, é “no desassossego/ que se afoga a preguiça”. Algo bem blasé:

ao contrário do que dizem
resolvi viver
não mais riscar com essa caneta
rangendo
nem coçar freneticamente a cabeça
cantarolando
“meu bem, meu bem…”
enchendo as unhas de lixo
e de cuspe o chão

O silêncio da ironia com dezembro. Que mistura água com óleo, que sabe que a felicidade não precisa de malabarismos. O silêncio de quem tem medo de um dia “de tanto apagar/ a vida/ ela se rasgue”. Um silêncio de quem se esconde nas sombras de Platão, algo meio Quintana, a falar da solidão do pingo de chuva. Um silêncio que simplifica a morte:

a morte
é cruel e simples
aos olhos da criança
que cresce:
– a gente chora
depois esquece

A poesia de Amanda é cheia de silêncios que falam alto. Interessante constatar que é uma estreante no gênero que não flerta explicitamente com alguma influência específica. Também não faz proselitismo, não é panfletária, não insiste na metalinguagem, não exagera em poemas sobre o nada, como se farta hoje a poesia brasileira, com poetas tão cientes de seus talentos quanto inconscientes da ausência de poesia em seus versos. A poesia de Amanda K. é silenciosa como um trovão nas noites quentes dos sertões nordestinos. Porque ela chega pontuada nos silêncios e de repente explode, com a vida, com o cotidiano, com a poesia, enfim.

Confiram esse poema:

na radiola do meu avô
vejo a vida passar
em vinis
descascando
pelas bordas

É um poema que resume a ideia da estreia de Amanda K. na poesia, em livro: a nostalgia musical do cotidiano lírico da poesia.

Em tempo: Natural de Cajazeiras, Amanda K. está radicada em João Pessoa. É advogada e foi vencedora do Concurso Nacional de Contos e Poesia que marcou os 60 anos do Correio das Artes, na categoria contos com a obra “Cogumelos nascem no telhado”. Seu livro “vinis descascando pelas bordas” foi lançado pela Editora Escaleras, da Débora Gil Pantaleão.

FONTE: CONEXÃO BOAS NOTÍCIAS
ELIANE BANDEIRA

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