JOSÉ NUNES

Tenho uma visão mística de Cajazeiras, cidade que tarde conheci, mas que estava comigo desde os primórdios dos anos 50 do século passado quando, em Serraria, passavam retirantes procedentes do Sertão, moradores de engenhos de rapadura que faziam suas compras na bodega de papai, e certamente alguns vinham daquela região.

O sítio Tapuio era, portanto, também lugar para onde convergiam pensamentos e gestos de pessoas procedentes dos mais diferentes lugares, sobretudo do Sertão, que, àquela época, ainda tangidos pela seca, tentavam sobreviver sob a benevolência dos brejeiros. Ouvia falar de Cajazeiras como um lugar distante, cidade onde os cangaceiros aceiravam, mas nunca se dobrando à sanha daqueles que, à época, eram considerados fora da lei.

Décadas depois, fiquei abismado com a paisagem tantas vezes decantada e nela fiz aconchego para minhas deslumbrações que ainda não consegui transpor em forma de verso. A cidade, que acolheu meu irmão num período de formação para padre, foi dominando-me e cativando-me a ponto de embriagar-me com a suave brisa nas noites de outono.

Aquela cidade, onde cedo brotaram ensinamentos acerca da prática dos Evangelhos, sempre dando passos no sentido de manter no Sertão sua postura liderança nas áreas do saber e da cultura, agora ganha novos ares com a instalação da Academia Cajazeirense de Artes e Letras, que busca perpetuar a memória de sua gente que atingiu o patamar no cenário artístico e cultural.

Não conheço nem todos que passam a integrar o seleto grupo de acadêmicos, mas, certamente, todos estão no elevado grau de conceito intelectual. Permitam-me fazer referência, aqui, ao amigo Francelino Soares de Sousa, mestre e gramático que a Paraíba reverencia, que toma posse nessa Academia, assim fazendo parte de um grupo que honra a cultura de Cajazeiras e do nosso Estado. Falo dele porque estamos sempre próximos, partilhando sentimentos que nascem de nossa fé no transcendental, ele mestre, e eu, aprendiz.

Autor de livros no campo do ensino da língua pátria, Francelino está presente na lista de minhas amizades que reservo para rever quando nas necessidades de aprendizagem, sem nunca exigir nada além do que é permitido para a boa convivência entre mestre e aluno. Tenho-o comigo, mesmo que nossos contatos sejam esporádicos, mas sempre ricos em ensinamentos a partir das consultas gramaticais ou nas necessidades, nas dúvidas da teologia bíblica.

Suas opiniões, por ocasião do momento em que, em Assembleia-Geral Extraordinária, dentro de um seleto grupo, foram aclamados os Acadêmicos da ACAL, certamente, enriquecem esta instituição cultural, que nasceu sob a égide da imensa sabedoria de seus fundadores, deixando transparecer o reconhecimento ao esforço dele em tornar o modo de escrever e do falar o Português cada vez mais acessível e compreensivo.

Homem que busca erguer o saber, silencioso trabalha com a perfeição do texto para elevar o espírito e limpar o cérebro, Francelino tem credenciais e pode alçar voos mais altos do seu ninho cajazeirense para chegar a paisagens ainda maiores.

Louvados sejam os artistas – poetas e escritores – que, com sua inteligência mais avançada, fazem a arte suscitar o contato espiritual como mundo divino para alcançar a paz. Estes são benfeitores da humanidade e merecem as glórias das academias.

JOSÉ NUNES É ESCRITOR – TEXTO PUBLICADO NO JORNAL A UNIÃO DE 23/05/2019

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