Os garotos do Flamengo e os da Praça do Espinho

A COLUNA DE EDUARDO PEREIRA

Aos quatorze anos eu estava batendo bola no campo do grupo Dom Moisés Coelho, em Cajazeiras, minha origem. Eram peladas no fim da tarde, quando o sol já estava retirando o chapéu para se recolher. Antes era impossível. O sol era escaldante como o inferno de Dante.

Aos quatorze anos jovens atletas, já quase debutando como profissionais, estavam instalados em containers no Ninho do Urubu, pertencente ao Flamengo. Originados de vários estados brasileiros buscavam o sonho de estrelas de futebol deixando pais mortos de saudades.

Não tínhamos concentração. Aliás, tínhamos. Eram os bancos da Praça do Espinho. De lá nos dirigíamos ao campinho. Sem dirigentes. Dirigidos pelo prazer de peladeiros.

Éramos Seis? Éramos dez? Não. Éramos muitos. Todos asilados da Praça do Espinho e adjacências. Todos com os rostos cheios de espinhas.

Os jovens do Flamengo são poucos, depois de terem passados em peneiras mirins aos milhares.

Não tínhamos o sonho em ser profissional da Liga de Futebol Cajazeirense. Era amadorismo que não dava liga para projeção de craque. Era suor, chuva e diversão.

Os jovens craques flamenguistas, vestindo uniformes de empresas milionárias patrocinadoras do clube, já estavam à meio caminho de assinaturas de contratos simples, por enquanto, mas polpudos no futuro próximo.

Éramos imberbes. Éramos bebês da bola de plástico, de meia, ou de qualquer objeto que rolasse. Nossa bula era jogarmos sem receita de futuro craque.

Os garotos do Flamengo eram paramentados de meãos e chuteiras de marca. Preparados para fotos de profissionais.

Nós, quem pudesse, usava kichute. Que chutasse descalços era o normal.

As regras nas quatro linhas dos pequenos do Flamengo são as dos profissionais. Nós éramos amadores desregrados. Mas éramos agregados sem juízes. Não tínhamos juízo com traulitadas, travadas, escorões abusados.

Os petizes do Flamengo eram craques. Tinha até convocados para seleção sub-vinte. Nós éramos pernas de pau. Palhaços com pelotas divertindo à mancheia.

Os rapazes do Flamengo eram como a molecada da Praça do Espinho. Eram jogadores de futebol. Todos amávamos, amamos, a bola no pé. O lúdico da bola rolando está na pele de cada um. Todos somos pelés em nossos sonhos.

No Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *