Os 60 anos da Capela do Cipó, em Cachoeira dos Índios


CAPELA-DO-CIPO

Por volta do fim do século XIX e início do século XX, a igreja mais próxima do Cipó, distando cinco léguas, era na cidade de Cajazeiras. Época em que os Moreira estavam iniciando o desbravamento e povoamento destas terras.

Todavia, as informações que tivemos foram de que Ana Moreira de Figueiredo, cognominada, de Donona, pelos seus irmãos, e, uma dos treze filhos de Manoel Barbosa Moreira, que no ano 1883 haviam migrado do município de Souza, para esta localidade, sonhou em erigir, aqui nestas terras, uma capela e sugeriu aos irmãos a doação de uma pequena área de terra para a construção da mesma.

A idéia e o desejo de Donona ficou latente, por muitos anos, pois os seus irmãos não concordaram com a doação do terreno, conseqüentemente, a construção da igreja não foi concretizada.

Com o passar dos anos, os sobrinhos de Donona, se tornaram pessoas de idade avançada e a região apresentava uma população idosa bastante elevada, que ressentia a falta de uma igreja, mais próxima às suas moradias, para participarem com mais freqüência, a atos religiosos. Naquela época, a população teria que se deslocar para Balanço ou Cachoeira dos Índios, ou mesmo, para Cajazeiras, para participar de ritos litúrgicos da igreja católica. Como naqueles idos a população não disponha de veículos automotivos, logicamente, os deslocamentos eram feitos a pé, ou, quando muito, a cavalo.

Como a chama do desejo de uma capela neste sítio permanecia acesa, na imaginação de todos e era tão arraigado o anseio pelo objetivo, que no início dos anos cinqüenta, em todas as reuniões de trabalhos, sociais e religiosas, desta comunidade, estava sendo sempre discutido a possibilidade da construção de uma igreja neste lugar.

A Professora Lindalva Claudino Martins,(aqui presente), que havia casado com João Martins Moreira e viera morar no sítio Cipó e, conseqüentemente, lecionar na comunidade, começou a sentir o firme desejo dos habitantes deste sítio, de construir uma igreja, nesta localidade, procurou o Sr. José Antônio Moreira, para pedir apoio, para essa grande missão, que de imediato, não só concordou com a idéia, como ofereceu o terreno para a construção da capela, como, também, uma espórtula de Cr$ 1.000.00 (Hum mil cruzeiros), para as obras do templo.

Diante deste entusiástico apoio dado por José Antonio Moreira, de imediato, convidou os seus dois irmãos: Hilário Moreira de Figueirêdo e Romualdo Moreira de Figueirêdo, para em comissão comunicarem, ao Vigário da paróquia de Cajazeiras, Cônego Américo Sérgio Maia, a decisão da comunidade de construir uma capela no Cipó.

O Padre Américo Maia apoiou o projeto, porem, a palavra final de autorização da obra seria do bispo diocesano. Portanto, ficaram aguardando a sagração e posse do novo prelado, Dom Zacarias Rolim de Moura, que naquela oportunidade já estava nomeado aguardando a sua investidura na dignificante missão de pastor da igreja católica da diocese de Cajazeiras.

Cumprida esta primeira missão estabeleceu-se o silêncio de aguardo da decisão do prelado cajazeirense.

No decorrer do período que se seguiu, para felicidade de todos os habitantes deste rincão sertanejo, ocorreu um fato desencadeante da concretização do sonho de Donona, que seria a construção da capela.

Exatamente, no dia 17 de novembro de 1953, passaria por terras do Cipó, procedente de Crato, com destino à Fortaleza (CE), a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima, que tendo partido de Portugal, percorria o mundo numa missão evangelizadora, sob a guarda do Frei Demontieux.

Ressalte-se que a imagem não estaria adentrando ao território da Paraíba, mas, apenas, pelo fato da trans-nordestina, hoje BR 116, cruzar o solo paraibano no município de Cachoeira dos Índios, ela trafegaria por este sítio, o que proporcionaria a oportunidade, a estes habitantes, serem os primeiros paraibanos a virem a imagem peregrina.

Os habitantes deste sítio se organizaram sob a liderança da Professora, da comunidade, Lindalva Claudino, para reverenciar a imagem de Nossa Senhora de Fátima. Mesmo sem ter havido qualquer solicitação, prévia, para que a comitiva guardiã da imagem fizesse uma estação nesta localidade. A comunidade se arregimentou e preparou uma grande manifestação de júbilo, convocando-se toda a população a comparecer e, também, a colaborar no preparo da ornamentação das margens da estrada, com bandeirolas, folhas de coqueiro e outros ramos de plantas silvestres, ao longo do percurso, em terras do Cipó. A cada cem metros ficou uma pessoa com fogos de artifícios para acioná-los no momento da passagem da imagem. A maior concentração foi em frente à escola da comunidade, exatamente, onde a comitiva fez uma pequena estação para que as pessoas pudessem ver a imagem, orar e fazer a suas preces.

O desejo da população foi atendido e a santa permaneceu por alguns minutos, suficientes para as súplicas e para a consolidação da idéia maravilhosa, que já existia na comunidade, erigir uma capela no sítio Cipó.

A ansiedade da população no sentido da realização do grande sonho da construção da capela, cada vez mais se evidenciava.

Há, aproximadamente, nove meses da solicitação, ao pároco de Cajazeiras, Cônego Américo Sergio Maia, de autorização para a construção de uma capela aqui no Cipó, o mesmo, inesperadamente, aos trinta e um dias do mês de março de 1954, ao encerrar as santas missões, no distrito de Balanço, anuncia a boa nova. Comunica a população, que Dom Zacarias Rolim de Moura, o novo bispo da diocese de Cajazeiras, havia aprovado a construção da capela do Cipó. Esta notícia foi recebida pela população desta localidade e da região, com muito entusiasmo e muita alegria. Praticamente, vieram do distrito de Balanço em passeata, com vivas e palavras de ordem, como manifestação da alegria que pulsava dentro alma de cada um dos habitantes da comunidade.

Muitas décadas depois o sonho de Donona, através de seus sobrinhos, demais familiares e da comunidade em geral, começou a se concretizar, no início da segunda metade do século XX, mais, precisamente, no dia 04 de julho de 1954, data em que foi fincada, neste solo, pelo doador do terreno, José Antônio Moreira, sobrinho de Donona, a pedra fundamental da capela do Cipó. Isto após a celebração de uma missa campal, em frente à escola da comunidade, seguida de procissão, com os fieis cantando hinos de louvor à padroeira, até o alto desta colina, onde seria construída esta igreja, onde hoje nós estamos comemorando seus cinqüenta anos de existência.

Naquela solenidade, como concluinte do então curso ginasial em Cajazeiras, tive a honra de expressar através de discurso, o sentimento de satisfação e de júbilo dos habitantes deste sítio, pela grande obra que se iniciava e que seria de valor inestimável para o exercício da religiosidade deste povo. A certa altura da minha fala naquela ocasião, dizia: “Nos foi concedido por Sua Excia. Revma. Dom Zacarias Rolim de Moura, o que desejávamos, isto é, construir esta pequenina obra, de tão relevante valor, razão pela qual, estamos hoje expostos aos fulgurantes raios do sol deste dia, com os corações vibrando de alegria, cantando hinos de louvor à excelsa – Mãe de Deus, elevando os nossos pensamentos até o alto, implorando bênçãos para a nossa jornada, que hoje firmamos o primeiro passo, com a benção da pedra fundamental, deste futuro santuário, onde teremos que venerar, a mais formosa que a formosura, a mais santa que a santidade, a mais graciosa que a graça – Nossa Senhora de Fátima”.

Gostaríamos que todos aqueles que estiveram presentes a aquela solenidade, estivessem hoje aqui com conosco, comemorando o cinqüentenário de luta, trabalho e vitória, mas como nós temos passagem efêmera, nesta vida terrena, com certeza, logo mais, não estaremos aqui, também, mas, queremos deixar consolidada esta obra, para nossos sucessores.

Para pedir apoio para essa grande missão, que a população acabara de assumir, a Profª. Lindalva Claudino, convocou uma reunião com a comunidade, a se realizar no salão da escola, onde a mesma ministrava aulas, para discutir concretamente, três assuntos principais: a localização da capela, o valor da contribuição que cada um deveria doar e, por último, escolher o padroeiro. Nesta reunião, das três matérias discutidas, só não foi definitivamente decidida a localização da igreja, que foi resolvido, posteriormente, em outra reunião.

Esta comunidade nasceu, se criou e continua vivendo, observando os princípios de moral, de fé católica e de respeito às colunas mestras da democracia. Basta lembrar que a escolha da padroeira desta igreja, naquela reunião, foi feita através de votação secreta.

Naquela mesma reunião ficou aprovado, ainda, que os homens casados doariam uma importância de até CR$ 1.000,00 (Hum mil cruzeiros), enquanto que os solteiros doariam até CR$ 500,00 (qüinhentos cruzeiros) e havia as doações de valores menores, de acordo com as posses das pessoas de menor poder aquisitivo.

A Profª. Lindalva Claudino, não parou por aí, imediatamente, dirigiu-se as senhoras, as senhoritas e as crianças. Às senhoras solicitou donativos para a aquisição dos paramentos do celebrante, às senhoritas orientou que as mesmas deveriam angariar recursos para aquisição da imagem da padroeira e às crianças solicitou doações para aquisição do cálice. Todas essas campanhas foram bem sucedidas, tendo sido adquiridos todos os equipamentos necessários ao funcionamento de uma igreja. Foram, também, solicitadas contribuições as pessoas de todos os sítios vizinhos e as pessoas dos povoados de Balanço, Tambor e Marimbas, como das cidades de Cachoeira dos Ínidos e Cajazeiras, sempre com êxito.

Com a benção da pedra fundamental se intensificaram os preparativos, para o início da obra de construção, que aconteceu no mês de agosto de 1954.

Seguiram os trabalhos de edificação da igreja, em ritmo razoável, tanto foi assim, que em abril de 1955, estávamos com a igreja coberta e fechada sem reboco e com um altar improvisado, fato este que entusiasmou a comunidade a inaugura-la.

Consultado o pároco da possibilidade de inauguração da igreja, no estágio em que se encontrava, o mesmo concordou. Com esta decisão surgiu a idéia de fazer um tríduo preparatório com início no dia 12 de maio de 1955, encerrando-se no dia 15, com a benção da imagem de Nossa Senhora de Fátima e sua capela.

Paralelamente, realizou-se uma festa social de quermesses com dois pavilhões, cognominados de Estrela do Norte e Cruzeiro do Sul com a finalidade de obter óbolos para a continuidade das obras de edificação do templo.

Como todas as campanhas empreendidas em prol da construção da igreja do Cipó, foram de absoluto sucesso, as quermesses não poderiam ser diferentes. È claro que o êxito foi extraordinário. O resultado financeiro foi suficiente para o pagamento de todos os débitos já acumulados e, ainda, sobraram recursos para dar continuidade ao acabamento da igreja.

Ao longo do decorrer das cinco décadas, de existência desta igreja, aconteceram muitas festas, muitas campanhas, para coletar recursos, com resultados financeiros favoráveis, para a manutenção da mesma. Todavia, nunca foram suficientes para dar o acabamento e o embelezamento, que todos nós gostaríamos que o santuário recebesse, até porque, ocorreu uma emigração bastante acentuada da população deste sítio, como também, verificou-se um empobrecimento da população remanescente, tornando-se cada vez mais difícil, recursos suficientes para atender as necessidades da igreja.

Fora realizado uma campanha com objetivo de coletar recursos para construção da torre da igreja. A meta foi conseguida e a torre foi construída, embelezando cada vez mais a nossa capela, tendo sido inaugurada no dia 07 de setembro de 1997.

Nos últimos anos foram feitas promoções através de eleições de rainhas, nos meses de maio, com o objetivo de coletar donativos para substituição dos bancos da igreja e para reformulação da cobertura da capela. Com estas promoções tivemos um resultado financeiro muito bom e, é justo que se divulgue para conhecimento da população, que o empresário João Claudino Fernandes, doou todos estes os bancos e mais uma contribuição financeira, num destes eventos, proporcionando com esta atitude, que se reservasse o resultado financeiro da promoção, só para a substituição da coberta da igreja.

Como podemos observar, sempre se conseguiu recursos, graça a boa vontade da comunidade e dos amigos desta população, no sentido de manter este templo em razoável estado de conservação.

Aproveito o ensejo para sugerir mais um desafio ao vigário Padre Janduy de Sá Alves e a comunidade com toda a sua força de trabalho, no sentido de lançarem uma campanha bastante arrojada para conseguir recursos suficientes para a substituição do teto da igreja, por placa de concreto armado, por ser uma cobertura definitiva, consolidando, cada vez mais esta obra, para usufrutos das gerações futuras, que haverão de vir, para nos substituir. Alem da necessidade de se ter uma reserva em caixa para a manutenção da igreja.

Não poderia encerrar esta minha participação, neste evento, sem manifestar o nosso preito de gratidão, a então bispo diocesano Dom Zacarias Rolim de Moura, que sabiamente autorizou a edificação deste templo e ao vigário da paróquia de Cajazeiras, a qual este sítio estava subordinado na época, o Cônego Américo Sergio Maia, que nos apoiou e nos encorajou, desde os primeiros instantes que foi solicitada a licença para a construção da igreja.

No arquivo desta casa constam relações com várias centenas de nomes de pessoas, que de uma forma ou de outra, contribuíram para a edificação deste templo. Cansativo e enfadonho seria enuncia-los todos aqui neste momento. Todavia, aproveito, este ensejo, para nas pessoas dos quatros que tiveram o privilegio de comunicar ao vigário da paróquia a decisão de construir a capela de Fátima, que foram os irmãos José Antonio Moreira, Hilário Moreira de Figueiredo, Romualdo Moreira de Figueiredo, já falecidos (aqui representados pelos descendentes) e Lindalva Claudino Martins, aqui presente, para homenagear todos aqueles que, com seu espírito de pioneirismo, de generosidade e de religiosidade contribuíram para a concretização desta obra.

Por fim quero abraçar e felicitar esta comunidade, na pessoa do vigário da paróquia o Padre Janduy de Sá Alves, por está dando continuidade a esta obra de Deus, implantada há cinqüenta anos, por uma geração, cuja maioria não está mais no nosso convívio, mas que certamente, lá no alto, com certeza, estará feliz e intercedendo junto ao Criador, proteção para todos nós.

Esta é a nossa contribuição a memória deste templo.

Pronunciamento do médico Zuca Moreira, por ocasião da comemoração do cinqüentenário de fundação da Capela do Cipó, do Distrito de Fátima, Cachoeira dos Índios, no dia 04/07/2004.

GAZETA DO ALTO PIRANHAS - ED.292 (16 A 22/07/2004)

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