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Olhando para o abismo

AM3 – 250×250

Recife, começo de 1973, estava eu de mudança para a capital pernambucana, e era recém chegado à Veneza Brasileira. Não me recordo exatamente se eu estava me matriculando no Colégio Nóbrega, ou se já o estava frequentando, mas eu caminhava na maior tranquilidade na Av. Conde da Boa Vista, quando fui surpreendido por uma multidão desesperada, em altos brados, dizendo: “Tapacurá arrombou!!; Tapacurá arrombou”. Eu inteiramente desconhecedor das coisas do Recife, tentava parar e perguntar a algum dos corredores assustados: e o Que é Tapacurá? Depois de várias levas de pessoas aterrorizadas, e foram muitas levas, mais de cinco, alguém que corria menos me informou que Tapacurá era uma barragem de contenção do rio Capibaribe, e como tinha arrobada, iria inundar o Recife de forma nunca antes vista. Então, com aquele ar de matuto desconfiado, caminhei, não corri até nosso apartamento que ficava no terceiro andar, teoricamente a salvo dessa enchente; assim que ligamos a televisão, havia um comunicado da CODECIPE – Coordenação da defesa civil de Pernambuco,  que afirmava peremptoriamente que não eram verdadeiras as informações, que o pânico não tinha razão de existir, que o povo poderia voltar a seus afazeres normais e não havia o que temer, mas até até que “essa nova noticia” chegou ao público, foi um caos no centro do Recife. Os motoristas de ônibus, por exemplo, saiam de suas linhas regulares e se dirigiam às suas casas para salvar a família, sem se importar com os passageiros, era um caos total, isso porque um grupo organizado, se dividiu em vinte outros grupos, e por toso o centro da cidade num horário previamente marcado, saíram apregoando tal notícia do fato inexistente. Ninguém até hoje descobriu, ou foi divulgado o nome dos responsáveis pelo maior pânico gerado no Recife. Por uma notícia de falsa.

Em 1938, o então desconhecido diretor Orson Welles, fez uma teledramaturgia que foi leveda ao ar pela CBS, sobre um livro de H. G. Wells, “a Guerra dos mundos”, explicando antes do que se tratava, como a maior parte do o público americano começou a ouvir a CBS depois dessa explicação, a grande maioria acreditou que a terra estava sendo invadida que encheu as ruas, hospitais, e congestionaram as linhas telefônicas de uma forma tão intensa, que depois o autor que posteriormente seria o Diretor e ator principal de Cidadão Kane, um dos maiores clássicos do cinema, a como que se retratar e dizer que era uma interpretação teatralizada de uma obra de ficção, e de desculpando pelo pânico causado.

Meu autor predileto, H. L. Menken, há cem anos dava a forma de como a imprensa agia, como tratava seus leitores, vou citar textualmente “Primeiro amedronte-o, depois tranquilize-o faça assustar fazendo- acreditar que o bicho papão existe, e depois corra para salva-lo, usando para isso um cassetete de jornal para matar o monstro” isso foi escrito há em 1920, exatamente há cem anos.

Pausa de cem anos: e nesse lapso centenário de tempo, a medicina, os medicamentos e diagnósticos dão um salto gigantesco, e a imprensa, sai do papel e vai para a WEB ou a rede mundial de comunicação.

Então no norte da China Comunista, onde se come tudo que se move (alimentar dois bilhões de pessoas tem que ser dessa forma), um vírus de cachorro, migra para os humanos, depois chamado de COVID 19, como lá as informações são controladas pelo estado, não se tem a exata dimensão dessa doença a letalidade dessa, chegando à internet, é turbinada à potência de dez (aquela que bota um monte de zeros para dizer números grandes) se cria uma enorme expectativa, e para completar a tempestade perfeita, alguém inventou um novo tratamento, antes nunca utilizada, expressa numa espécie de neologismo cheio de charme, o  “Isolamento social”, o tal do fique em casa, e sem se conhecer a letalidade desse novíssimo mal, somente na paraíba, mais de dois mihòes de pessoas, se trancam em casa.

Parou-se tudo, comércio, indústria transportes, quase tudo. Nossas ruas estão desertas; todo mundo aderiu a “nova onda” poucos vislumbraram o “day after”, ou seja que o comércio, a indústria os transportes são vitais para a economia, e os governos em todos os níveis, aderiram em massa a esse tipo de tratamento para conter esse vírus letal.

Então os resultados começam a aparecer. Agora 25/03, quando eu escrevo essas linhas, segundo alguns especialistas, seria o pico do contágio, se contam os óbitos dessa “pandemia “no nosso estado e se tem um número estarrecedor: ZERO.

Então, caro leitor, como se falar em pandemia sem ninguém morrer, e os custos desse isolamento; eu que como engenheiro trabalho com parques e circos, existem oito parques que eu inspeciono, mais três circos, interditados, e somente nesses, mais de cem pessoas sem poder trabalhar e segundo alguns, na iminência de “passar fome”, o mesmo se repete no pequeno comércio, feiras livres e por aí vai.

Já passa da hora de matar o bicho papão com o cassetete de jornal, mas sempre se soube, amedrontar é muito mais fácil que esclarecer, e vai levar um tempo que os mais pobres não têm para que a situação volte à normalidade.

Essa já é a maior crise desde Dilma, e vai sobrar para quem estiver à frente do executivo, com uma diferença, os governadores têm dois anos para se recuperarem desse monumental erro, já os prefeitos, terão pouco mais de seis meses para se explicarem aos seus eleitores.

Tenho na minha cabeça de leigo irresponsável, exemplos e assunto para pelo menos três textos como esse, mas carece espaço. E assim como carece neurônios nos nossos executivos. As medidas que foram tomadas são, quando muito, paliativas.

Foi interessante ver o Presidente da China em Wuhan, falando com o povo, e fazendo compras para tranquilizar a população, aqui se fecham as rodovias que são vitais para o reabastecimento.

Daqui a vinte anos, se não muito me engano, seremos motivo de piada, como foi em Recife em 1973.

TATYANA
ELIANE BANDEIRA

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