O silêncio diante do livro

A COLUNA DE EDUARDO PEREIRA

Estava caminhando e ao passar por uma praça pública ladeada de ruas onde o trânsito era barulhento resolvi sentar num banco e fazer uma pausa. Fiquei observando o vai e vem de gente e carros naquele caos nosso de cada dia e sentindo a ausência do canto de pássaros para abafar aquela acústica urbanóide.

Num banco relativamente próximo ao meu uma jovem sentada lia um livro bastante concentrada. Até me surpreendi, pois, o comum para nossa época era estar agarrada a um celular de forma extasiada.

Elevei minha curiosidade a um grau de entusiasmo tal para saber qual livro fez aquela garota ficar ensimesmada em meio àquela balbúrdia.

Seria uma leitora obstinada e eu é que estava supervalorizando aquela cena? Era um livro mais ou menos volumoso. Minha vista não alcançava maiores detalhes.

Será que aquela guria fez algum curso de concentração a ponto de não deslocar sua atenção do livro por nada? Imaginei, não sei porquê, naquelas mãos estavam o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Ou seria um best seller ranqueado em primeiro lugar da lista dos mais vendidos de revistas semanais?

Estava eu incomodado com aquela barulheira. Eu jamais conseguiria estado de atenção para leitura de livro ali naquele ambiente ruidoso. Se fosse um jornal, vá lá, pois seriam leituras curtas.

De repente no zum-zum daqueles automóveis em velocidade mediana ouve-se uma freada brusca e uma buzinada irritante. A ledora compenetrada nem se quer desviou seu olhar.

Meu deus do céu, que mistério literário envolvia entusiasticamente aquela moça? Não é possível! Teria eu que ir lá pedir licença para saber que livro fantástico era aquele?

Três adolescentes de gestos espalhafatosos passaram em sua frente e nada de menção em levantar a cabeça.
Imaginei que nem as bombas de Hiroshima e Nagasaki – lançadas no Japão na Segunda Guerra Mundial em 1945 – despertariam aquela focada exemplar.

Ao lado da leitora modelo estava uma amiga – percebi que era – se deliciando com a tela de seu celular. Cutuca o ombro da absorta, que, só agora desperta para a colega que a convida para ir embora através da linguagem de libras.
Senti-me surdo, mudo e cego.

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