O que eu vi em Monteiro?

Vi a esperança personificada em milhares de rostos que, de todos os cantos, chegavam agitando bandeiras imaginárias onde, em letras marcantes e pulsantes, destacava-se não apenas a palavra, mas o sentimento vida.

Nestas bandeiras li as explicações para a palavra e a vivência dignidade. Vi milhares de sertanejos com olhos embaçados pelo prazer de verdadeiramente sentir-se sertanejo. Prazer de viver e sobreviver em uma terra que lhe deu nascença e de onde não foi forçado a arribar, mesmo enfrentando o mais rigoroso período de secas de sua história. Vi homens e mulheres sendo homens e mulheres, e não flagelados, retirantes, saqueadores, esfrangalhando sua condição de gente em minguados quilos de farinha, arroz, feijão surrupiados de um depósito de merenda escolar ou esvaindo os derradeiros fiapos de humanidade nos campos de trabalho forçado modernamente designados de frentes de emergência.

O que vi em Monteiro?

Vi mulheres de todas as cores sendo mulheres de todas as cores. Mulheres cujo sorriso não mais esconde o medo da violência, do assassinato, da agressão física, moral, psicológica apenas por ser mulher, por usar uma roupa “provocante”, por trazer um sobrenome masculino. Mulheres protegidas pela Lei Maria da Penha, pela Lei do Feminicídio, pelo cartão do Bolsa Família que lhe restitui dignidade e lhe empodera.

Vi jovens, crianças, velhos. Todos habitantes de um país que ensaiava os primeiros passos da dignidade das pessoas e de sua condição de Nação. Rostos de um país que, no cenário internacional, não se curvou servilmente aos interesses e julgo dos poderosos.

Rostos de um país que não mais se envergonhou de sua cachaça, de suas festas juninas, de suas rendeiras e artesãs, transformando estes em ingredientes de suas recepções diplomáticas, revelando ao mundo um povo criativo, produtivo.

O que vi em Monteiro?

Vi milhares de pessoas. Quantas? Não sei precisar e, para mim, é um dado que não desmerece a emoção deste momento.

Uma emoção que partilhei com a mãe que trazia no colo o bebe adormecido e, enrodilhado nas pernas, a pequena filha que, entre espanto e surpresa, vivenciava e protagonizava um momento de vivência humana genuína.

Uma emoção que me contagiou pelo brilho do olhar de um ancião que, em sua calçada, com as pernas trôpegas pelo peso dos anos não consegue acompanhar a marcha humana, mas murmura para o líder que passa em carro abeto. “Este ali sou eu”.

O que vi em Monteiro?

Vi um homem de fala rouca, de rosto septuagenário, mas que traz na sua história de vida a capacidade de governar pessoas, problemas, políticas, programas tendo como ingrediente a inesgotável convicção de que é preciso “não ter medo de ser feliz”.

O que vi em Monteiro?

Vi a mim mesma enquanto cidadã. Espremida no meio da multidão, dividindo espaços, respirares, suores, sonhos.

Vi homens e mulheres sendo apenas, e tão somente, homens e mulheres.

Isto o que vi em Monteiro!

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