O perigo da naturalização dos absurdos

A COLUNA DE RUI CÉSAR VASCONCELOS LEITÃO

É muito triste constatarmos que chegamos ao tempo em que manifestações absurdas são naturalizadas. Pronunciamentos que antes nos escandalizavam, hoje já não provocam perplexidade. E a mídia ajudando a comprometer a democracia quando dá espaços para divulgação de tantos disparates, muitos deles com propósitos claros. Alcançamos a era da idiocracia, como bem definida na comédia “Idiocracy”, de Luke Wilson, que mostra um futuro em que os Estados Unidos seriam um país dominado pela ignorância.

A trivialidade e a vulgaridade dominando as polêmicas do mundo atual. Percebe-se o predomínio da bobagem intelectual, inclusive entre pessoas que assumem posições de destaque nos escalões do poder. Ou pelos que os circundam, seja por subserviência, seja por relações íntimas familiares ou de afinidades ideológicas. A sociedade inclina-se a conviver com a anticultura. A ausência da racionalidade é perceptível. Avançamos perigosamente ao estágio de emburrecimento.

O grotesco é comemorado como se fosse um grande feito. Comportamentos bizarros são até aplaudidos. Nasce aí o risco de termos uma opinião pública idiotizada e medíocre. O absurdo manifesta-se como padrão de pensamento político. Mentiras e difamações circulando com naturalidade nas redes sociais e nos meios de comunicação. Impõe-se o ódio ao conhecimento científico, o que não deixa de ser uma característica dos regimes fascistas. As igrejas neopentecostais tentando fazer a cabeça das pessoas, produzindo lavagem cerebral para atendimento dos seus interesses, negando, inclusive, princípios evangélicos.

É preocupante quando começamos a ver que nada mais nos surpreende. Tudo adquire aspectos de normalidade. Autoridades homenageiam torturadores. Pessoas púbicas defendem a volta de sistemas ditatoriais. Alguns não se constrangem, nem se envergonham, em desejar medidas repressoras como o AI-5. Comete-se a sandice de afirmar que a terra é plana. Só para citar algumas estultices colocadas publicamente, como se fossem a coisa mais natural do mundo. Mas tem muito mais. A cada dia nos deparamos com outras estapafúrdias manifestações de pensamento. Se não reagirmos, seremos tragados pelo império da ignorância e da desinformação.

No Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *