O Nordeste e o mito Jair

A COLUNA DE FRANCISCO SALES CARTAXO ROLIM

REUTERS/Ricardo Moraes

Acabou-se o tempo das frases de efeito, quando todos concordavam que nosso problema era somente a escassez d’água. A solução, portanto, era construir poços, grandes, médios e pequenos açudes. Frases tonitruantes enchiam corações de esperança! “Venderei o último brilhante da coroa, mas não deixarei um cearense morrer de sede”. Disse Pedro II, diante de terrível seca, de consequências muito mais traumáticas do que hoje, as pessoas esquálidas a cair de sede e fome na beira das veredas de comboios. Que rei! Suspiravam nossos ancestrais. Daí nasceu o Açude do Cedro, em Quixadá.

Mais tarde, com base no mesmo diagnóstico – a água soluciona tudo – esta outra sentença de José Américo, “pior do que perecer de sede no deserto é morrer de fome na terra de Canaã”, inundou o ar de emoção. O orador, que conhecia o drama dos retirantes, e o eternizara n’A Bagaceira, induziu gerações a crer em sua palavra. Palavra do mito. (Um mito honrado, de palavra firme). Nessa época, a Região já ostentava açudes construídos por força do prestígio do maior dos nossos políticos. Não só açudes. Estradas de rodagem e de ferro, centros de pesquisas, desde as decisões audaciosas de Epitácio Pessoa.

Atenta, a geração seguinte, munida de técnicas de análise econômica e do saber sociológico e histórico, projetou um facho de luz. O problema não é só falta de chuva. É mais complexo. É de desenvolvimento econômico e social. A água é fundamental, mas insuficiente para tirar o Nordeste do secular atraso. Precisamos mexer no domínio e na posse da terra, pregou Celso Furtado. Atiçou casa de marimbondos.

Comunistas!

Gritaram. Rezaram. E deram o golpe.

Um general gaúcho, sem nada conhecer do Nordeste, pronunciou estas palavras: “Vim, vi e não gostei. Isso haverá de mudar”. O auditório da Sudene explodiu em palmas. Quem escrevera aquela sentença retorcia as mãos, extasiado com a beleza de sua criação literária. Os governadores, sentados em suas poltronas, não perguntaram ao presidente Garrastazu Médici: general, como o senhor vai mudar? Meninos, eu vi. Não cabiam perguntas incômodas. Eram dias de silêncio. E noites de lancinantes gritos de presos políticos em paus-de-arara, na cadeira do dragão, choques elétricos na vagina. Tempo de torturas. De revolta armada abafada pela censura. E dor. E choro baixinho em noites de insônia.

Por inercia, mantinha-se a chama acesa pelo cassado Celso Furtado, num esforço tangencial para nada mudar. A Sudene mantendo os incentivos fiscais e financeiros à industrialização, que, mais tarde, constatou-se ser artificial. Revitalizaram a prática dos currais eleitorais, o Nordeste virou um celeiro de votos do partido do governo, a encobrir o simulacro de democracia, o presidente da República eleito, em segredo, por meia dúzia de estrelas nos ombros.

Mais tarde Lula emergiu.

“Eu ficarei feliz quando o pobre puder comer três vezes ao dia”. Esta frase de efeito revelava os programas sociais de transferência de renda: o bolsa-família, a elevação do poder de compra do salário mínimo, a disseminação do ensino superior. Na esteira, empinaram a corrupção, reforçada e ampliada para manter o governo de coalizão baseado em propina, destrutiva de alguns símbolos de lutas do povo. O mito ruiu.

E o mito Jair?

Promete o 13º do bolsa-família! E virá inaugurar canais de águas do São Francisco. O fantasma de Lula atrás. Jair, Jair, cadê você? Quarto mês de gestão e ninguém sabe o que Jair pensa do Nordeste. Nem sabe o que fazer do Banco do Nordeste.

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