O medonho do comunismo

A COLUNA DE MARIANA MOREIRA

Nasci em 1959. Portanto, parte considerável de minha infância, toda adolescência e início da juventude vivi em plena ditadura militar. Um período onde a violência institucionalizada transversaliza a vida em todas as suas dimensões, silenciando, inclusive, e com recorrência, com a morte, aqueles que ousam resistir ou propor uma forma menos traumática devida e de convivência social.

Aluna do Grupo Escolar Lindalva Claudino, no Distrito de Fátima, é comum, no intervalo do recreio, a professora nos levar para a igreja, localizada ao lodo sul da escola, para rezarmos um terço e reclamar a intervenção da Virgem para livrar o país da iminente ameaça comunista. Meus conhecimentos de Ciência Política e de Sociologia são nenhum para entender o significado político e religioso de comunismo. Apenas interrogo a mim mesmo: “que danado é esse tal de comunismo que mobiliza toda uma escola e interrompe o parco horário de recreio e as brincadeiras de bicheira e mata-mata para rezar  pedindo sua extinção?”

As aulas de Sociologia e Ciência Política da universidade, no Bacharelado em Comunicação Social da UFPB, mesmo ainda na vigência uma ditadura, fragilizada e com evidentes sinais de decadência, permite conhecer o danado do “comunismo” de maneira mais sensata e sem as paixões que o fundamentalismo, religioso, político, ideológico provoca.

Entendi que comunismo é apenas e tão somente a defesa de uma vida em comum. Ou seja, superando o nocivo entrave da propriedade privada que divide a humanidade em proprietários e não proprietários, todos terão acesso ao que, no limite de suas necessidades, pode ser consumido. A máxima de “a cada um segundo sua necessidade”, ou melhor, a superação da cruel realidade que divide os que têm e os desprovidos das condições mínimas de sobrevivência, me pareceu uma interessante e fascinante forma de viver.

E o “medonho” do comunismo que me apavora na infância durante as preces na capela de Fátima, vai se dissipando no conhecimento real do significado desta proposta de organização da vida. E hoje, quando a paranoia dos bolsominios vê ameaça comunista em toda parte, apontando o Foro de São Paulo como uma sórdida invenção de camaradas que planejam transformar a América Latina num grande laboratório de ateus sanguinários e virulentos que disseminarâo a discórdia e a violência pelo continente, leio a Bíblia e, no livro dos Atos dos Apóstolos, encontro o que bem poderia ser o prefácio ou a epígrafe do Foro e, porque não, de nossas vidas.

A multidão dos que haviam crido era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum. (…) Não havia entre eles necessitado algum. De fato, os que possuíam terrenos ou casas, vendendo-os traziam os valores das vendas e os depunham aos pés dos apóstolos. Distribuía-se então, a cada um, segundo sua necessidade. (Atos 4,32.34-35).

E, no Novo Testamento, vejo o Cristo Crucificado e o corpo sendo desnudo e suas vestes disputadas pelos inimigos como botim de guerra. E, nos nossos dias vejo tantas Mariele, Judith, Evaldo tendo suas vidas consumidas por milicianos, aparatos policiais, grupos armados que dividem o banquete e partilham da proteção e guarda do poder que, de mão engatilhada, anuncia o comunismo como o mais feroz dos monstros que, ameaçando nossas vidas, carece ser extirpado, mesmo como a degradação do humano que padece em fome, queimadas, óleos derramados em oceanos a contaminar mares, empobrecer vidas, antecipar tempo de existência do planeta.

Mas, afinal, quem tem medo de comunista?

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