Qual o limite para a intolerância? E quando a intolerância se metamorfoseia em intransigência, em arrogância, em desumanidade, onde pode n o9s levar?

A intolerância é irmã siamesa da violência, da tirania, do arbítrio, da morte.

A intolerância se amálgama com ingredientes que resultam em miséria, pobreza, vilania. Uma profusão de sentimentos, atitudes e ações que traz como a mais pujante, embora asquerosa, expressão a fome de corpo e de vida.

Essa a mais sensível definição que me ocorre quando assisto grupos de pessoas expressando opiniões e desejos os mais ardis e venais em redes sociais, ou mesmo portando cartazes, com frases maldosas, na porta do hospital onde se encontra internada, em estado grave, Dona Marisa Letícia, esposa do ex presidente Luis Inácio Lula da Silva.

Desejos de morte e outras macabras exortações reveladoras da absoluta ausência de sentimento de solidariedade, de qualquer traço se nos aproxime como seres pensantes que, convivendo na diferença, se irmana e se associa na dor, no sofrimento, na angustia.

As manifestações perversas contra o ex-presidente e sua esposa enferma nascem do mesmo ventre que gerou toda a perseguição política, sexista, homofóbica, a ex presidenta Dilma Roussef. Alimenta-se da mesma seiva que nutre o ódio ao negro pobre que frequenta a universidade pública, ao gari que grava um disco, ao homossexual que tem sua dignidade e sua opção respeitada e protegida, ao nordestino que não carece esconder seu sotaque.

O desejo de morte justificado pelo ódio desmedido nutre e fermenta práticas obtusas e justifica a violência como atributo inerente ao homem.

Perdemos a capacidade de termos compaixão. Ou seja, de compartilhar a paixão.

A paixão pelo outro que se fragiliza na fome, no degredo, na droga, na doença.

Quando transformamos o ódio em sentimento banal, corriqueiro e usual nos distanciamos, ou mesmo, nos apartamos de qualquer possibilidade de vivenciar e compartilhar a paixão.

Perdemos a capacidade de enxergar o outro em sua humanidade débil, suscetível ao erro, ao crime, a dor, a doença, ao sofrimento. E assim, retrocedemos enquanto espécie pensante que, por séculos, vem buscando construir civilidade em sua relação com o outro, com o meio, com o planeta.

Vejo no sofrimento de Dona Mariza Letícia o sofrimento de minha mãe, acometida por um fulminante AVC hemorrágico há quatro anos. Sinto na dor, na tristeza, no desamparo e na solidão do Luis Inácio Lula da Silva, e de seus filhos, o mesmo sentimento que me congelou e me enrijeceu quando senti minha mãe inerte, agonizante, carente de vida.

Quando o desejo de morte se torna trivial, emerge como necessidade urgente, a nossa reação enquanto cérebros pensantes. É imperativo que não deixemos que procedimentos e posturas fascistas ofusquem, ou soterrem nossa capacidade de vivermos o humano em nós, tendo compaixão e compartilhando abraços, afetos como armas que superam a dor, a tristeza, a desolação.

Somente assim, poderemos um dia, quiçá, compartilhar a vida.

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