Bem no começo dos anos 70, quando a gente veio morar de novo em Cajazeiras, havia um livro que mexia com nossa curiosidade adolescente, tinha o título de “Palavras Cínicas”, de um autor português, chamado, se não muito me falha a memória, Albino Forjaz. Era, como todo livro maldito deve ser, cercado de mitos e lendas: o primeiro era que era uma espécie de “manual do suicídio”, uma versão tardia de “Os Sofrimentos de Werner” de Goethe, em português. Era lido nos silêncios solitários das noites ou madrugadas cajazeirenses, e havia inclusive uma hierarquia de quem podia ler, começando pelos mais velhos e após a leitura, passado aos mais jovens. Diziam mais ou menos assim: “fulano leu, e mudou de comportamento”, sicrano ficou deprimido, assim, o sujeito lia e entrava numa espécie de depressão suicida. Um dos ‘leitores” desse livro, Bosco Nascimento, efetivamente cometeu suicídio, e de uma forma bastante insistente; pois o revólver que que ele se matou, tinha duas balas marcadas pela agulha de detonação, foi como se a própria morte dissesse: “Bosco eu não quero levar você… Mas já como você insiste tanto, tudo bem”.

Isso acontecia num dos melhores tempos da História de Cajazeiras e do Brasil, no auge do “Milagre Econômico”, no tempo da construção da BR 230, que tirou não só Cajazeiras como também as maiores cidades da Paraíba do isolamento, do começo da radiodifusão, do Ensino Superior, das músicas de exaltação e ufanismo: “Esse é uma país que vai p’rá frente… Ôôôôôô”  Era uma das melhores épocas em que nosso país vivia, Enquanto isso, a gente, os adolescentes, e os um pouco mais velhos, vivíamos a ler o tal “Palavras Cínicas”.

Pronto, esse livro passou de mão em mão, e chegou a vez de um grande amigo e colega de turma meu ler, o tal livro amaldiçoado, era Antônio Carlos Vilar, que hoje é um pacato pai e avô de família na Capital Alencarina, ator de muitas qualidades dirigido inclusive por minha mãe. Toim, irmão de Lúcio e de Luiz Vilar, nas horas que não estava na escola era caixa de uma lanchonete que seu pai, seu Zé Vilar arrendava, “A Merendinha”, e ele que estava a ler o tal livro, andou perguntando quem conseguia arrumar uma “cápsula de cianureto de potássio” para ele. Sabedor disso, Seu Zé Vilar funcionou como um pai: confiscou o livro e o queimou à frente de todos os que presenciaram, como um Savonarola, ou mais recentemente os nazistas, só que para o bem de todos nós. Esse livro destruído, estava, de tanto passar de mão em mão, sem encadernação, somente era um amontoado de páginas que foi queimado, deixando todos nós com a grande curiosidade de saber o que continha aquele livro maldito.

Sem ele, tocamos nossas vidas, casamos, continuamos nossas vidas e conservamos nossa amizade, adicionando seus irmãos Lúcio e Luíz em nosso meio.

Pronto. Aos 40 anos fiz vestibular para Direito e fui adquirir meu segundo diploma.

No meio do curso, um de meus colegas (Josias Fonseca), apareceu com umas frases estranhamente parecidas com o que segundo eu ouvia há trinta anos passados. Perguntei donde ele tinha tirado essas frases, e ele me disse que tinha o tal livro “Palavras Cínicas” pedi para copia-lo, e fui atendido.

Então, fui tirar a prova do que havia nessas páginas que impressionaram nossos contemporâneos: inclusive um deles, que morava em Salvador me pediu uma segunda cópia: Eu fiz a dedicatória “Ao amigo Ubiratan, para ler essa obra no Elevador Lacerda, e se quiser, dar azas ao seu sonho de Ícaro”, ou seja: se jogar do elevador, como o personagem do livro Capitães da Areia de Jorge Amado.

Então, a surpresa: o livro, apesar do prefácio impactante e de ser bem escrito, esse prefácio falava as proibições que tinha sido vítima, as tiragens limitadas que haviam sido autorizadas: em dúzias, ao invés de centenas ou milhares, me pareceu, aos 40 anos, uma coleção de preconceitos, meias verdades, ou puras mentiras, tão repetitivo que nauseava; eu somente cheguei ao fim porque sou um leitor teimoso, termino de ler, mesmo que não goste ou divirja frontalmente do que está escrito. Não tive nem um pouquinho, mas nem um “tico” de vontade de acabar com minha vida. Somente como exemplo, dizia que todos os amigos são falsos e todas as mulheres são traidoras e levianas. Ô mau gosto, Ô más escolhas. Interessante, consultei o outro destinatário desse livro (Ubiratan de Assis, trabalhava no BB de Salvador e hoje é nosso Secretário de Cultura) e ele teve exatamente a mesma impressão. Somente para dizer alguma coisa, o mito que o autor havia se suicidado, era somente uma espécie de falsa propaganda para vender mais dúzias desse livro, não ensinava nem o nó do enforcado…

Então, vamos tentar concluir: no tempo em que a gente era muito jovem, nós não tínhamos nossos valores bem estabelecidos, então na avidez de acreditar em algo, terminávamos chegando à conclusão que o que estava escrito nesse livro, era a verdade, pois não tínhamos muitas outras fontes disponíveis, ou éramos muito crédulos.

Coisa semelhante sucede com nossos jovens, que não dispõem de um Seu Zé Vilar para impor limites. Então, conceitos errados, como a apologia ao crime, às drogas, à violência, vão se firmando nas novas gerações como valores absolutos e terminam sendo imitados, como aconteceu com nosso infortunado Bosco Nascimento, um rapaz que gostava de estudar, era inteligente, e tinha um futuro brilhante pela frente, abortado por ter acreditado em maus conselhos.

Se algum amigo quiser lê-lo, apesar de não gostar, acho que ainda tenho uma cópia, e posso ceder, mas o revólver ou a corda ficam por sua conta…

P.S. – Dedico esses escritos a Ernesto Albuquerque (Ernesto da Peixada), pessoa excelente, que em uma situação de desespero, encontrou a solução mais desesperada. Se bem orientado, podia enfrentar e superar, pois por pior que seja a crise, ela passa, mas da morte ninguém volta.

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