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O inspetor de quarteirão e o robô eleitoral

POR FRANCISCO FRASSALES CARTAXO

O inspetor de quarteirão teve longa presença no Brasil. Fazia parte de um sistema que, no Império, tinha a cabeça na Corte e os outros membros na província e nos municípios. As peças chaves eram o chefe do Conselho, os ministros, o governador, o chefe de polícia, o juiz, o delegado, o subdelegado e no fim da linha o inspetor de quarteirão. Esse sistema se apoiava em três pilares: a justiça, o fisco e a polícia. Magistrados, juiz de paz eleito, delegado, subdelegado e inspetor de quarteirão operavam em favor da facção política majoritária. Os de cima mandavam, os demais amargavam o ostracismo.

Com pequenas variações esse esquema vigorou também na República Velha. O inspetor de quarteirão, aliás, ainda sobreviveu, maquiado, até o final do século XX. O governador biônico de São Paulo, Paulo Egydio, em decreto de 1975, reorganizou “a função de inspetor-de-quarteirão”, tornando-a gratuita e conservando esta tarefa: avisar a autoridade constituída quanto à conduta das pessoas e às malfeitorias ocorrentes no quarteirão. Nostalgia histórica, quem sabe, do coronel Erasmo Dias, um controverso personagem da ditadura militar de 1964, que assina o decreto. De degrau em degrau, o inspetor de quarteirão findou no folclórico Cabo Tenório, imortal forró de Rosil Cavalcanti.

No Brasil rural do Império, o quarteirão era um conjunto de fazendas, engenhos, sítios e roças. Ali, no meio de uma população de analfabetos, o inspetor de quarteirão sabia ler. Era um rei! E manejava bem o bacamarte, a espingarda, a peixeira, o punhal, a corda e o cacete.

O inspetor de quarteirão fazia o quê?

Ameaçada ou aconselhava. Protegia ou batia. Denunciava ou escondia. Prendia ou soltava. Muitas vezes surrava. Baixava o cacete. Poucas vezes matava. Enfim, casava e batizava. Tudo ia depender do lado do interlocutor. Em dia de eleição, o trabalho do inspetor de quarteirão era indispensável. Com cabras armados, ele arrebanhava os partidários da facção no poder, enquanto impedia, muitas vezes pela força, a presença dos adversários nos locais de votação. Era assim um exímio mobilizador de bois para o espetáculo farsante da eleição! Eleição que começava com a missa na igreja, onde se dava a pleito, que, mais tarde era narrada no papel, com relações de votantes e eleitores, votos válidos e votos nulos, de conformidade com o costume e a lei. Tudo registrado na ata. Na famosa ata falsa, da eleição a bico-de-pena, que mandava para o Congresso parlamentares que garantiam as maiorias legislativas do partido governante.

Hoje o quarteirão é uma nonada.

O mundo mudou. A tecnologia domina a comunicação instantânea, o fato transmitido ao vivo para o universo. O planeta cabe no celular. O voto eletrônico sofisticado e fácil. O inspetor de quarteirão entrou no museu. Cedeu lugar a intrincados softwares que, em minutos, espalham fake news nas redes sociais. Ao invés da presença acintosa de capangas armados, a ameaçar, bater, prender, surrar ferir e matar, o terrível mundo novo usa, à sorrelfa, armas destruidoras da reputação das pessoas. Pouco importam os fatos. Cuida-se de manter a tensão nas redes sociais, ambiente propício às mensagens falsas, lançadas por destruidores de reputação. Cada época com sua tecnologia. Ontem, o inspetor de quarteirão armava a cena para forjar atas falsas. Hoje, escondidos em gabinetes, figuras invisíveis acionam robôs do mal para “fabricar” vencedores. O bacamarte virou robô eleitoral.

Por FRANCISCO FRASSALES CARTAXO

Francisco Sales Cartaxo Rolim foi Secretário de Planejamento da Paraíba e, hoje, preside a Academia Cajazeirense de Artes e Letras.

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