O dono da voz

A COLUNA DE MARIANA MOREIRA

A voz melodiosa, articulada, serena se sobrepunha aos chiados do rádio de pilha que, solenemente instalado em uma mesinha forrada com toalha de retalhos, compunha a paisagem da sala principal da casa, dividindo espaço e importância com os quadros de santos e fotos familiares. Em momentos, bastante frequentes, quando as dificuldades da grande família exigiam outras prioridades, e o rádio de pilha silenciava pela falência das baterias, vencia o medo das visagens e malassombros, para ouvir a voz na casa de Madrinha Zefinha, irmã de meu pai, “moça velha, vitalina” e que ficou morando na casa dos meus avôs paternos, a cerca de quinhentos metros de minha casa.

Ainda criança, aos dez anos de idade, venho morar em Cajazeiras para dar sequência aos estudos, dividindo uma pequena casa na rua Dr. Coelho com irmãos, primos e tios. Certo dia, fugindo a vigilância dos mais velhos, me aventuro até a Rádio Alto Piranhas, que funcionava anexa ao Cine Teatro Apolo XI, ao lado da Catedral. A intenção da aventura, que me rendeu algumas reprimendas, era conhecer o dono da voz que enchia minha vida de Raios de Luz nas bocas de noite, em Impueiras.

A aventura teve ainda como saldo o encanto da magia do rádio, determinante para, anos depois, me conduzir a uma graduação em Comunicação Social e ao exercício do jornalismo, exercido, por vários anos, em emissoras de rádio de Cajazeiras. A luz vermelha, a cabine e seus misteriosos microfones, os botões da mesa de controle, o toca disco que, entre chiados e giros, fazia ecoar sons e tons, me encantam e dividem a fascinação com as voz que anuncia músicas religiosas e mensagens de crença em humanidade.

Anos mais tarde, ao ingressar, como docente, na Universidade Federal da Paraíba, lotada no Quinto Campus, em Cajazeiras, encontro o dono da voz, também docente, mas não atrás de um microfone em uma cabine radiofônica, ou em uma sala de aula, entre quadros negros, giz, apostilas e rostos ansiosos de mundo universitário. Estava atrás de um balcão, atendendo a todos no Departamento de Recursos Humanos. A fala não mais trazia a pujança que os microfones e as ondas hertzianas dimensionavam. O jeito acanhado não correspondia ao desenho que meu universo de criança traçara para o dono da voz. Sumira a mediação do rádio e sua mágica capacidade de levar a voz milhas além de seu dono. Persistira apenas a admiração pelo profissional ético e servidor público decente.

Hoje, quando a voz definitivamente se cala volto a Impueiras para tentar encontrar entre brumas e vestígios de memórias a voz do rádio e a menina assustada que, serelepe, retornava da casa da tia, no breu da noite, cantando “Diz o A Ave Maria, diz o B bondosa e bela…”, como a afugentar almas penadas e assombrações que mais eram fruto da fértil imaginação. Imaginação que lhe transforma em ídolo o dono da voz, mas hoje, como diz o poeta Chico Buarque,

A voz foi infiel, trocando de traquéia
E o dono foi perdendo a voz

E o dono foi perdendo a linha – que tinha
E foi perdendo a luz e além

E disse: minha voz, se vós não sereis minha
Vós não sereis de mais ninguém.

 

PS: Para Dulcílio Elias Ramos, o dono da voz.

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