O dia em que quase matei a Filosofia

A COLUNA DE EDUARDO PEREIRA

Quando estudei o primeiro e segundo graus não havia a disciplina filosofia. O ar que a educação brasileira respirava estava poluído com a fuligem da ditadura militar.

Respirar o saber grego era coisa para gente muito interessada e às escondidas. Saber questionar, como os gregos pregavam, num regime verde-oliva, era querer cavar a própria sepultura. Não havia como ultrapassar o muro pedagógico da ignorância militar.

Em Cajazeiras-PB, cidade que me encarnei, tinha um cara muito estudioso de filosofia. Ficávamos, os adolescentes, encantados com suas exposições sobre os filósofos gregos.

Como era apaixonado por futebol, e o meu time preferido em Cajazeiras era Estudantes, procurei decorar os nomes dos pensadores exaltados pelo filósofo cajazeirense com a escalação para um jogo intelectual com a seguinte formação: no gol: Demócrito; na zaga: Tales de Mileto e Pitágoras recuados e avançando: Empédocles e Diógenes; pelas pontas: Parmênides e Anaximandro; e o trio de ataque: Sócrates, Platão e Aristóteles;

A Praça do Espinho era nossa Ágora – que era a praça dos gregos -, reduto apreciador de tempo vazio, próprio para pensar traquinagens, e os céticos verbalizavam como local de bando de asilados.

Mas nosso filósofo – que não mais lembro seu nome – se enfronhou tanto nos estudos de filosofia que as pessoas achavam que ele ia enlouquecer. Do mito da caverna à ética não escapava nada à sua erudição.

Certo dia correu a notícia que nosso filósofo suicidou. E à boca pequena correu pela cidade que sua cabeça travou com os paragolômenos (palavra que não tem no dicionário e que criei agora para designar estudos intrincados) filosóficos.

Nós jovens admiradores do filósofo das cajás ficamos órfãos sem podermos ter a sensação lisérgica de compreensão filosófica greciana. Desculpem se estou escrevendo difícil, mas quem está no comando dos dedos do teclado é o adolescente que queria entender de filosofia, negado pelas pilastras de cimento armado da ditadura militar de então, repito.

Já na universidade, com a razão supostamente em equilíbrio, e estudando filosofia da educação em minha primeira graduação, pedagogia, tive um entrevero com o professor.

Se filosofia, segundo o dicionário, é o “conjunto das reflexões particulares que buscam entender a realidade, a partir da razão”, comecei a fazer uma série de questionamentos, dentro do espírito da aula, e o professor entendeu, segundo colegas falaram-me mais tarde, que eu estava testando seus conhecimentos. Confesso que não.

Só sei que o mestre começou a se irritar comigo, falando alto, esbravejando, e quanto mais eu questionava mais ficava com o rosto avermelhado e as veias do pescoço inflamadas, ressaltadas. Vi a hora o educador ter uma indisposição e falecer por minha causa.

Diante do silêncio sepulcral da turma, me calei. E antes que chamassem o corpo de bombeiros casquei fora com meus prolegômenos. Nas aulas seguintes não pude mais dilatar as veias filosóficas do doutor, sob risco de assassinar a filosofia.

Estamos em 2019, e o presidente do país quer menosprezar a filosofia nas escolas. Se ele fosse aquele meu professor, com certeza teria eu sido preso e obrigado a tomar cicuta.

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