O dia em que o comunismo pulou pela janela


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A Praça da Matriz estava lotada, era gente que saía pelo ladrão. Aquela platéia quase seria a democracia na sua mais pura essência e totalidade. Todas as raças, posições políticas e condições sociais estavam ali representadas. Credo não, nessa questão a posição era totalitária, única e imutável: eram todos cristãos e devotos do frei Damião.

De topografia inclinada, a praça, mais do que qualquer outra, prestava-se para a pregação de missões. Logo à porta da igreja, aquele imenso patamar, rodeado de escadarias, que colocava-se cerca de um metro e meio acima do nível do resto da praça, onde espraiava-se aquela massa uniforme em seu misto de fé, fanatismo e esperança.

No ponto mais central do patamar postava-se o púlpito, onde o frei Damião fazia sua pregação. O tema era variado mas sempre repetido, o comprimento e decotes dos vestidos, a condenação (ainda nesse mundo) aos amancebados e, para completar, o comunismo. Ah, ao comunismo o pequeno frei dedicava toda sua verve, todo seu poder de convencimento, deixava quase em transe aquela massa assistente, que à medida em que era desfiado seu sermão, aumentava a fé, a contrição, o entusiasmo.

O frade, identificado como um misto mágico de poço de bondade, anjo vingador, caminho para a cura e passaporte para Deus, agigantava-se quando proferia seus sermões. Homem miúdo, de voz frágil e aspecto delicado, suas pregações tinham o condão de projetar a concretização de todos os anseios daquela gente, ali mesmo, naquele momento. À medida em que ia falando sobre comunismo, definindo-o como algo que limitava os fiéis a um vestido por ano, um ovo por semana e um quilo de carne por mês, a massa incorporava a revolta contra aquele ente cruel, aquela coisa desumana. Se a definição de comunismo atinha-se às relações humanas, chumbo grosso, colocava a desagregação da família, filho entregando pai, pai denunciando 0 filho, irmãos em discórdia, casamentos desfazendo-se ao sabor das conveniências do regime, fazendo a massa chegar ao delírio. A um comando do frade, certamente iriam todos à mais ferrenha batalha, por menores que fossem as chances de sobrevivência, com o fim de destruir aquela coisa monstruosa que os afastava de Deus.

O fanatismo havia chegado ao ápice, as emoções estavam explodindo, tudo era fé, fanatismo, uma panela de pressão em ponto de explodir, quando um vendedor de loterias, aproveitando-se daquela concentração popular, passa anunciando um bilhete que, certamente, seria premiado. Ao barulho, uma beata contrita ferozmente perguntando, em tom discurso, o que diabo seria aquilo, quem e o que teria o atrevimento de interromper uma missão daquele homem santo. Algum gaiato teve a idéia de, numa brincadeira, gritar:

– É o comunismo!

Foi o suficiente. Os que estavam próximos, aptos portanto a entender que estava acontecendo, formaram uma espécie de corredor polonês batendo, para dar fim, destruir, matar o comunismo. Foi a maior confusão, inicialmente localizada, a seguir, generalizada. Toda a multidão entrou em transe, a cruzada dos tempos modernos estava iniciada, a nova guerra santa fora deflagrada, o povo de Deus teria de destruir o comunismo e eles eram os escolhidos.

O infeliz do vendedor safou-se como pôde. No meio do caos que se formou, rumou ao patamar, entrou na igreja e desapareceu em busca da sacristia. Os santos guerreiros atrasaram-se por não saberem exatamente a forma com que o dragão da maldade, ou seja, o comunismo, apresentava-se. Esclarecidos, puseram-se em destino à sacristia onde encontraram uma viúva rezando, talvez pedindo a Santo Antonio que lhe ajeitasse o casamento com Dr. Otacílio Jurema, o solteiro mais notório da cidade. Às perguntas sobre o destino que teria tomado o comunismo, respondeu candidamente:

– Pulou pela janela!

VALIOMAR ROLIM PARA O GAZETA DO ALTO PIRANHAS

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