O delator Claudio Melo Filho


Muitos apostavam que Marcelo Odebrecht não seria preso. Nunca. Difícil imaginar atrás das grades homem tão poderoso. Essa crença existia quando as investigações da Lava Jato avançavam e grandes empreiteiros de obras públicas já curtiam prisão preventiva ou viravam delatores. Contra os Odebrecht – Marcelo sempre arrogante e o pai, Emílio, bravateiro -, só havia especulação. Enfim, em 19 de junho de 2015, Marcelo é preso, sem ainda ter perdido a soberba.

Refresquemos a memória.

Pouco antes, Marcelo Odebrecht fora à CPI da Petrobras na Câmara. Deputados de quase todos os partidos políticos lhe teceram loas da tribuna. Não interrogavam, bajulavam. Não incriminavam, aplaudiam. Cada fala de nossos (?) representantes era uma exaltação à competência, ao amor ao trabalho, à projeção dos Odebrecht lá fora, a forte presença na América Latina, responsáveis por tocar um império formado por dezenas de empreendimentos em quatro continentes. Até na Europa!

Marcelo, um semideus?

Mais tarde, a gente ficou sabendo porque o tratavam como um semideus. O pombal comia milho em sua mão! Preso em Curitiba, Marcelo caiu na real. A arrogância cedeu lugar ao pragmatismo da colaboração premiada. Inteligentes e realistas, ele e o pai, montaram a estratégia da delação em bloco. E lá se foram mais de setenta executivos das empresas do grupo Odebrecht revelar, um a um, as entranhas do submundo do poder no Brasil, expostas nas relações promíscuas entre empresários e políticos.

Estarrecido, o mundo inteiro ficou sabendo da existência do Setor de Operações Estruturadas. Oxente, que é isso? Sofisticado departamento de propina. Oculto, mas real. Para mim, essa foi a mais engenhosa inovação no modelo de gestão empresarial do Brasil corrupto. Ali estavam planilhas de propina e apelidos. Ah, os apelidos! O leitor ainda lembra? Angorá (Moreira Franco), Primo (Padilha), Caju (Romero Jucá) Índio (Eunício Oliveira), Caranguejo (Eduardo da Cunha), Pequi (Ciro Nogueira), Boca Mole (Heráclito Fortes).

Até um paraibano de Sousa ganhou o seu: Todo Feio (Inaldo Leitão). Este apelido foi posto por Cláudio Melo Filho. Quem? O vice-presidente de relações institucionais, encarregado dos interesses do grupo Odebrecht no parlamento, tendo no senador Jucá, ele disse, o meu principal interlocutor no Congresso. Pois bem, Cláudio Filho mandou doar 100 mil reais ao deputado Todo Feio, mesmo sem que o sousense tenha prestado serviço relevante aos Odebrecht. Perspicaz, Cláudio quis comprar na folha o sousense de futuro, atuante membro da Comissão de Constituição e Justiça.

Quando vi e ouvi na internet 26 minutos da delação de Cláudio Melo Filho era como ver e ouvir seu pai, meu colega de turma na Faculdade de Direito da Bahia. Meu maior amigo no tempo de estudante em Salvador. Juntos descemos e subimos ladeiras em inesquecíveis noitadas… fomos a congressos da UNE, a semanas nacionais de estudos jurídicos, ele presidente do DCE e eu redator do jornalzinho Unidade. Poucos anos depois, nossos laços se estreitaram. Ele casou com Maria Laura, colega de Helena na Universidade Católica do Salvador. Ambas minhas alunas. Helena virou a mãe de meus três primeiros filhos.

Cláudio, pai, era piauiense. Abaianou-se desde o ensino médio. Abraçou o ramo de publicidade e marketing. No grupo Odebrecht comandou as relações institucionais. Em 2004 sofreu um AVC. Cláudio Filho, herdou o lugar do pai, que morreu em 2012. Mundo estranho, o nosso.

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