Alô, criançada: o Bozo chegou, trazendo alegria pra vocês e o vovô. Esta frase era o primeiro trecho da música de abertura do programa de TV. Todas as manhãs, de segunda a sexta-feira, das nove às onze horas, meu mundinho infantil se encantava. Durante as tardes, muitas vezes, a estratégia se repetia. O cenário era um picadeiro, com algumas arquibancadas compostas por crianças e alguns adultos. O SBT era o responsável por dar vida ao palhaço Bozo e sua turma.

Os amigos mais frequentes do protagonista eram outros palhaços: Vovó Mafalda, Papai Papudo e Kuki. As palhaçadas e trapalhadas eram muito tranquilas, dóceis, simples. Algumas crianças se apresentavam num determinado número ou quadro do programa, espécie de show de calouros. O candidato podia cantar, contar piada, fazer cambalhota, qualquer atrativo que mobilizasse a todos. Acontece que cada personagem, no júri de fantoches gigantes, dava sempre a mesma nota, não importava o tipo da apresentação, cor, talento ou tamanho do artista-mirim. A gente, telespectador, sempre esperava, no fundo, uma novidade, mas, de certa maneira, gostava da mesmice. Bozo, Bozoca, nariz de pipoca. Os jurados: Candinha, Zico, Zecão, Maroca e um ou outro humano que aparecia como convidado.

Quando fui crescendo, percebi que o palhaço era um ator, que também trabalhava como jurado noutro programa da televisão de Sílvio Santos. Na escola, minhas amigas lembravam que mais outros dois ou três atores interpretavam. Ou seja: Bozo eram muitos. Realmente. Disso eu não gostava. Mexia com minha bobice. Atacava minha ingenuidade.

Ele lia as cartas dos fãs. Não, não cheguei a mandar. Mas tive vontade. Mandei pra Turma da Mônica. Vixe. Isso é outra prosa. Vamos ao espetáculo circense e televisivo. Tempos depois, fiquei sabendo que Bozo era uma marca, comprada, ou melhor, alugada, pelo canal. A empresa norte-americana, por isso as cores do figurino do palhaço, repartiu-se em muitas. Cada uma era especialista em algo: montagem, roteiro, elenco, cenário. Ganhou-se bastante dinheiro com essas peripécias. Cada país tinha seu jeito específico de tratar o tema.

Tempos depois, eu já adulta, pegava a mim mesma lembrando com carinho da música Tumba na catumba. Eu cantava direto, até enjoar. A letra dizia as horas, de uma às dez. Quando o relógio bate a uma, todas as caveiras saem da tumba. Refrão: Tumba na catumba, tumba tá. Bis. Quando o relógio bate às cinco, todas as caveiras apertam o cinto. Refrão. Bis. E as rimas meio sem nexo aconteciam. Vovó Mafalda cantava num clipe e a turma toda dançava. Hilário. A gente se divertia e imitava todos os personagens. Fanta Laranja era o refrigerante patrocinador, campeão dos aniversários. Não consigo acreditar no quanto já bebi desse borbulhar de açúcares.

Lembro de alguns dos desenhos animados, que entravam como participações especiais no circo. Algum integrante do rol de palhaços chamava. O Pequeno Príncipe, versão mangá, era certo. Cavalo de Fogo era outro que passava. Meio chato, eu achava, mas via. Punk, a levada da breca, às vezes falhava. A Nossa Turma, sim, todo santo dia. A música-tema até hoje está grudada na cabeça. Certa vez, faz tempo não, eu a ouvi em algum lugar, vinda pelo vento. Olha, só não chorei porque não me concentrei. O coração balançou e foi longe.

A Turma do Pernalonga era algo esperado. Até hoje gosto. Toda a patota tem alguma lição pra dar. Existe sempre aquela mensagem subliminar que a criança não capta de imediato, mas, ao crescer, lembra, analisa, concorda, discorda, pondera. O próprio coelho e seus amigos todos exibem narrativas redondas, prontas para o cotidiano: Gaguinho e Patolino são exemplos bem claros. O primeiro sofre com o preconceito dos outros e o segundo sofre com o pavio curto de si mesmo. Veja só, que atual.

Que saudade daquele Bozo. Ainda não vi Bingo: nome dado para não causar constrangimento com os direitos autorais. O longa-metragem brasileiro conta a história de um dos atores que fez o palhaço durante mais tempo. O rapaz se envolveu com situações perigosas construídas pela embriaguez da vaidade. Experimentou a fama como o objeto traiçoeiro que representa: corta, fura, atira, arranha, enlaça. Dizem que o ator que faz o personagem no filme, Vladimir Brichta, está impecável. Estou me devendo essa. História é para ser contada e recontada: que respeitemos as versões possíveis.

E meu sagrado imaginário infantil está no seu devido lugar. Ainda bem. Ufa. Quero continuar achando que há algo engraçado: as trapalhadas são ensaiadas e pueris, os fantoches são de brincadeira, os desenhos são uma atração especial. Os calouros recebem notas justas, há lisura nos comentários e a premiação é um delicioso pacote de bombons e caramelos. Pode até a iluminação falhar na hora do show. Pode até o som pifar, mas o público é sempre animado. Merece ser feliz.

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