O besouro

A COLUNA DE EDUARDO PEREIRA

Estou relendo o Guerrilha Noturna, de Joel Silveira, à noite, em minha escrivaninha, e aparece um besouro voando e fazendo um zunido irritante. A princípio tento deixá-lo fluir em seu estado natural. Politicamente correto meu coração clemente tem dó de matá-lo. Ele é daqueles que fica emborcado e se debatendo para se desvirar.

Sai andando por entre papeis, dá uma voada, para emborcado, luta para se desemborcar sofregamente, consegue, voa no ambiente, dá um rasante em minha cabeça e procuro deixá-lo aprontar.

Volto a leitura do livro e imagino se fosse com Joel Silveira, em seu estilo cortante e ácido, já teria esfregado o inseto no chão e continuado a leitura tranquilamente.

São 23:15 em meu relógio de pulso encostado num livro e o bicho passeia sobre ele como se tivesse preocupado com as horas. Vira e desvira mais uma vez.

Essa sua luta desesperada me faz lembrar o Brasil em suas fases históricas. Emborca com a ditadura militar, desemborca com a redemocratização. Emborca com Collor, desemborca com…

Como o olhar da história é de acordo com o prisma de cada um, no momento vejo o Brasil desemborcado. Esperneando. Não está conseguindo se desvirar de jeito nenhum. O suplício é maior do que o do besouro, porque este não tem preocupação com ideias e comportamentos estranhos de agentes públicos conservadores e falsos moralistas.

Na linha cronológica o Brasil tem pouco mais de três anos para se desvirar e se aliviar e continuar seu voo. Na do besouro seu instante de poucos segundos para se desvirar deve ser uma eternidade. Inda mais sob minha vigilância de a qualquer momento espinafrá-lo para as cucuias.

Sempre faço a ressalva reversa para não melindrar meus amigos que enxergam o país desvirado às mil maravilhas.

Percebo que estamos na época de aparecer esses bichos inteligentes em que, nós bichos-homens, não conseguimos fazer a tentativa de uma revolução modelo como eles tentaram fazer certa vez. Sim, eles tentaram fazer uma revolução utópica que ficou registrado pelo escritor George Orwell no livro A Revolução dos Bichos.

Nós, besouros humanos, que nos debatemos para nos virarmos no dia-a-dia, somos a eterna utopia de um mundo melhor sem o Muro de Berlim, que hoje completa 30 anos.

A revolução dos bichos, a revolução dos homens, está nos voos rasantes que cada um de nós queremos dar em confraternização. E a democracia plena é o caminho. Portanto, faço meu brinde à democracia: desce aí uma cuba libre no capricho!

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