Nossas mãos

A COLUNA DE MARIANA MOREIRA

Uma alegoria nascida na esteira da resistência dá a dimensão do momento que vivemos: “ninguém solta à mão de ninguém”. Uma imaginária corrente que nasce como trincheira de enfrentamento para práticas fascistas que se manifestam em comportamentos, atitudes, discursos substanciados por ingredientes homofóbicos, raivosos, preconceituosos.

E a mão que enredilha a minha traz a calosidade do trabalho de Seu Zé Félix, Seu José Feliciano, Dona Mariana, Dona Deíde, assentados e assentadas da reforma agrária que, em suas práticas e posturas, mostram a viabilidade da agricultura familiar, vivenciam o respeito à terra e ao meio e o ensinamento da partilha. Homens e mulheres que, vencendo cercas e armas, transformam a terra em alimento para homens e bichos, respeitando o solo, as plantas, as aves e dando dignidade a caatinga.

A mão que enredilha a minha traz a gentileza de Seu Dedé Jerônimo, um vizinho de Impueiras cuja disponibilidade para a solidariedade não conhecia horário, variações de tempo, distinção social. Sempre acudia aos vizinhos no auxílio às vacas prenhas que estavam com complicações no parto. A prosa mansa, o café degustado com lentidão, a serenidade do olhar de Seu Dedé Jerônimo configurava o humano que se esconde em nós. E, tangendo seu minguado rebanho de cinco vaquinhas, brincava: “estou levando as “sonoras” pra escola”.

A mão que enredilha a minha traz a luta da Joyce Montinelly Oliveira na árdua travessia pelo reconhecimento da dignidade das pessoas trans. Com ela aprendi, em esporádicos momentos de convivência, mas em fartos espaços de seguimento de sua trajetória, que nascemos apenas e tão somente humanos, nos definindo como sujeitos com identidades e configurações de gênero no curso de nossa história e da nossa cultura. A mão de Joyce segura às mãos de Dandara e de tantos outros e outras trans, travestis, lésbicas, gays cotidianamente silenciados, eliminados na sanha machista de normatizar o diverso e impor uma ordem moralista, falsa, eivada de equívocos hipócritas e perversos.

A mão que enredilha a minha traz o calor de tantas Marias, Elzas, Neidinhas, Macianos, Laurecis, Antonias, Ninás, Miryans, Zequinhas, Anastácios que, no cotidiano de suas vidas e de suas práticas políticas foram me ensinando que livros são mais contundentes que revólveres como armas de transformação de mentes e paisagens. Que negros, brancos, índios, amarelos são apenas e tão somente variações de um mesmo tom: a raça humana. Que mãos entrelaçadas em abraços são mais letais que mísseis na destruição da ignorância, da exclusão, do preconceito.

Enfim, a mão que enredilha a minha tem calor, sensibilidade, toque, pulsar de sangue, músculos, ossos.

Enfim, a mão que enredilha a minha tem dedos amputados em tornos mecânicos, tem cabelos grisalhos em grades de prisão, tem dignidade e altivez para, no silêncio e na solidão do cárcere, nos lembrar que não podemos aprisionar nossos sonhos.

E nossas mãos se enredilham em teias que nos fazem fortalezas e armas contra a opressão.

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