No dia em que eu quis ser bispo


Acompanho a vida cultural de Cajazeiras em fragmentos, pelas redes sociais, consultando sites e blogs. Uma conversa aqui e ali pelo telefone também me ajuda a ir formando um quadro da cena artística atual, marcado pela efervescência, dizem, sob a condução do nosso Gérard Depardieu, o secretário Bira de Assis. Todos os dias vejo imagens e leio postagens que, à distância, dão a impressão de fervura cultural. Animação total. E não é por causa do São João. Encenações teatrais, show, dança, música, literatura, lançamento de livros, encontros ao lado do velho coreto, local das retretas de antigamente, para curtir poetas e versos. Mesmo com pouca gente é bacana isso tudo.

Essa seara não é a minha.

Mas vale fazer uma revelação pessoal, guardada a sete chaves pelo receio de me expor. Esse clima de vibrante euforia no campo das artes em Cajazeiras que, solitário, noto aqui do Recife, trouxe à memória um fato pessoal marcante da infância. Tão forte que provocou, talvez, uma mudança de rumo na minha trajetória. Foi assim. No meado do século XX, a animação artística em Cajazeiras era puxada pelo colégio das freiras e o colégio dos padres. Professoras, uma ou outra senhora ou senhorita da sociedade, um padre, uma freira, um clérigo salesiano escolhia uma peça de teatro e danava-se a ensaiar com rapazes, moças e meninos. Numa dessas iniciativas me envolveram. Suponho que partiu de minha tia Ana Sales de Brito ou de alguma das minhas irmãs a ideia de me fazer ator. Menino (teria eu 8 ou 10 anos?), coube a mim encarnar um personagem mirim: um matuto, morador no pé de serra. Apareço no palco, em uma cena no terraço de uma casa na cidade. Ao lado de minha mãe (na vida real, Alice, irmã de Abdiel Rolim) fui o centro das atenções, quando alguém me perguntou:

– E você, quer ser padre?

– Não, eu quero ser bispo.

Respondi ajeitando um chapéu de massa verde que puseram em minha cabeça.

– Por que você quer ser bispo?

– Eu quero ser bispo porque a roupa do bispo é mais bonita do que a do padre.

A resposta, dita num tom cantante, cadenciado, em grotesca imitação do beiradeiro, provocou uma risada geral na plateia. Essa explosão de riso martela, ainda hoje, na minha cabeça. Estão mangando de mim, assustei-me. Ora, eu já entrara no palco do Cine e Teatro Éden meio desconfiado, aquele auditório imenso no meu olhar de criança. Aquilo era uma risada de mofa, coisa ruim. Uma vaia. Sacanagem.

O drama foi um sucesso!

Programaram outra apresentação. Recusei voltar ao teatro. Bati o pé. Chorei. Não vou. Vão mangar de mim outra vez. Não houve argumento capaz de convencer-me de que aquela zoeira coletiva após minha resposta era aplauso… conversa, era vaia. Finquei pé. Não vou mais.

Um saquinho de bombom salvou a reprise!

Retornei ao palco com a mesma fantasia, o chapéu verde, a calça no meio da perna, a camisa quadriculada. E tornei a dizer, desconfiado, o texto decorado, do meu desejo de ser bispo, no mesmo tom cantante e cadenciado, imitando matuto do pé de serra.

Resultado: nunca mais aceitei participar de outro drama. Nunca. Talvez por essa marca negativa na minha alma infante, eu carregue uma admiração especial pela coragem de atores e atrizes que enfrentam o público numa boa, sem achar que risada é sinal de galhofa. Quem sabe, se não fosse aquele incidente na minha vida de ator, eu estaria hoje ofertando ao secretário Bira de Assis, a história do teatro em Cajazeiras.

No Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *