Natal, canção, ação

A COLUNA DE MARIANA MOREIRA

Quinta-feira, 20/12/2018.

TATYANA
AM3 – 250×250

Então é Natal, e o que você fez?

O refrão da clássica canção de John Lennon se espalha pelos altos falantes do centro da cidade enquanto gentes e automóveis transitam na indiferença de suas pressas.

Em uma calçada, mãos se estendem a caridade reeditando, com ênfase, cenas de um cotidiano social que parecia superado no ontem, mas que ressurge na mesma proporção em que investimentos públicos em saúde, educação, seguridade são tratados como graves entraves ao “desenvolvimento e a estabilidade econômica” do país.

Por entre galhos de um frondoso oitizeiro o som da melodia se mistura ao canto de pássaros enquanto olhos embaçados de álcool e crack de moradores de rua espreitam a generosidade de alguns que, superando o preconceito dos vidros fechados de seus automóveis, estendem uma cédula de dois reais para um taco de pão, um gole de aguardente ou uma pedra que lhes subtrairão, por intervalos oníricos, da madrasta realidade das ruas. Mesmo que em devaneios alucinantes e degradantes.

De passo apressado e voz medrosa gentes, com suas caras calejadas e vozes enrugadas pelo pesado trabalho na roça, cortam a melodia buscando informações do endereço do INSS. Precisam encaminhar os papéis do aposento e temem ser superados pelas reformas que se anunciam como “salvadoras”. As vozes acanhadas expressam o medo de um amanhã que ameaça roubar toda perspectiva de esperança para seus filhos e netos. Uma criança puxa a saia da mãe reclamando picolé pago com o troco que sobrou do Bolsa Família.

E no poste o alto falante continua entoando: “Então é Natal, e o que você fez?”.

Alguém chuta um magrelo cão de rua que perambula a ermo na cata de uma lata de lixo que sacie sua trespassada fome de pão e afeto. Seus grunhidos abafam a melodia e atraem outros olhares caninos que se esgueiram em becos e caçambas de entulhos temendo os próximos chutes e maus tratos. Mesmo a melodia não tem a capacidade de suavizar a lembrança de que o Deus Menino nasceu em um estábulo, assistido por bois, vacas, ovelhas e arriscas e curiosas corujas e que teve como primeiro abrigo as palhas mornas do capim ruminado pelos animais.

Uma senhora alinhada exalando uma refinada essência passa apressada como a querer livrar-se da inconveniência dos fartos embrulhos e sacolas que protegem presentes e agrados, trocados na noite de Natal, após a abundante ceia que celebra alguma coisa suscitada na canção que lhe entranha os ouvidos. Olhar suspeito para o menino que, apenas de surrada bermuda, pés descalços e cara suja, lhe espicha olhos de desejos de uma canção que lhe lembre abraços, afetos, humanidades capazes de aliviar o cotidiano de violência, carências e nadas de tantas Asas e Mutirões.

“Então, é Natal, e o que você fez?”

Que a canção seja ação em nossas vidas não apenas hoje, mas em todos os dias, em todos os gestos, em todas as atitudes e práticas, para que os Herodes de hoje não assustem e ameacem os Cristos meninos de amanhã.

ELIANE BANDEIRA

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